Objectivo dos investidores na China deve ser vender para o mercado chinês, diz responsável da Câmara de Comércio da União Europeia

31 July 2006

Pequim, China, 31 Jul – O secretário-geral da Câmara de Comércio da União Europeia na China defendeu que está esgotado o modelo económico de produzir barato na China para exportar para outros mercados.

Em entrevista ao macauhub disse ainda que o investimento industrial futuro passa pela produção com destino ao mercado chinês.

“Não vejo futuro, nem presente, para as empresas que vêm para a China só para produzir aqui e reexportar depois,” considerou Giorgio Magistrelli, que apontou a quebra nas margens de produção no país como a causa principal para o fim anunciado da deslocalização da produção para a China.

O secretário-geral da Câmara de Comércio da União Europeia na China (EUCCC, em inglês), disse ainda que a Europa de Leste está a competir cada vez mais com a China na atracção de empresas europeias que querem poupar nos custos de produção e depois exportar os produtos para os mercados europeus, mas referiu que esta mudança reflecte uma maior capacidade chinesa na atracção de investimento sustentável a longo prazo.

“O trajecto que tenho vindo a observar e em especial nos últimos dois anos, é que as companhias vêm para a China não só para produzir para o mercado de exportação mas acima de tudo para produzir para o mercado interno,” referiu o responsável em declarações à macauhub.

O mercado interno chinês, de acordo com números da câmara, representa um enorme potencial para os bens europeus. O número de consumidores de produtos da União Europeia é actualmente de 75 milhões, mas este número pode subir para 200 milhões em 2015.

Apesar deste potencial, as empresas europeias queixam-se de dificuldades de penetração no mercado chinês devido a medidas proteccionistas de Pequim, como a condição de proceder a transferências de tecnologia para a participação em concursos públicos ou a falta de transparência no sistema legal e judicial que obriga, entre outras coisas, a passar por processos prolongados para obter licenças de negócio.

No primeiro semestre de 2006, a China atraiu 28,428 mil milhões de dólares americanos no primeiro semestre do ano, um decréscimo de 0,47 por cento em relação ao mesmo período ao ano anterior, de acordo com o Departamento de Estatísticas do governo chinês.

Giorgio Magistrelli alertou também para a necessidade da China intensificar as medidas de protecção dos direitos de propriedade intelectual (DPI), para atrair investimento de valor acrescentando, como unidades de Investigação e Desenvolvimento de empresas multinacionais.

Magistrelli considerou mesmo que assegurar a protecção dos DPI “é um dos desafios para a China no médio prazo,” até porque as maiores prejudicadas pela violação dos direitos são as empresas chinesas, “que são a parte queixosa em mais de noventa por cento dos processos cíveis de violação de DPI na China.”

“Assistimos agora à vinda para a China de muitas multinacionais, para criar centros de Inovação e Desenvolvimento, e poderia ser ainda mais atractivo mudar para a China ainda mais centros de mais empresas se a legislação de protecção de DPI funcionar, porque as empresas não vão recear perder as patentes dos produtos em cujo desenvolvimento investiram tanto dinheiro,” referiu.

“O maior desafio em termos de DPI não é criação ou a aprovação de legislação, mas sim a execução e aplicação da lei. Pequim e Xangai são locais onde a implementação é correcta, mas os grandes problemas existem ao nível local. Por isso, quando uma companhia decide vir para a China, é muito importante que analise muito bem de antemão o local onde espera localizar a produção,” disse o secretário-geral da EUCCC.

Dados do Departamento do Comércio dos Estados Unidos da América indicam que as marcas internacionais perdem cerca de 60 mil milhões de dólares por ano no mercado chinês, devido à venda de falsificações. A indústria automóvel europeia considera que a falta de aplicação das leis de DPI é a maior barreira comercial existente na China, custando ao sector cerca de 10 por cento da facturação anual.

“Estamos a trabalhar em conjunto com as autoridades chinesas para desenvolver o conhecimento da protecção dos DPI através de projectos de cooperação na área da informação, sensibilização e educação pública,” disse Giorgio Magistrelli.

A EUCCC é o maior grupo de influência das empresas europeias na China e assegura a comunicação regular entre o governo central, os governos locais e os representantes das empresas europeias na China.

“Não nos limitamos a pedir coisas para os nossos membros, damos em troca às autoridades aos conhecimentos e as competências dos nossos membros, e somos por isso chamados quase sempre para comentar a criação de legislação, porque a experiência que temos na Europa permite-nos prever as consequências de determinada lei a ser aprovada,” explicou Magistrelli.

A organização, que tem financiamento privado iniciou actividade no ano 2000, contando com 50 membros, dois escritórios e 13 empregados.

Tem agora 920 membros, 35 trabalhadores e sete escritórios nas cidades em Pequim, Xangai, Tianjing (Norte do país), Cantão (capital da província de Guangdong, no Sul do país, fronteira a Macau), Shenyang (capital da província de Liaoning, no Nordeste da China), Nanjing (capital da província oriental de Jiangsu) e Xengdu (capital da província central de Sichuan). (macauhub)

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