Necessidade chinesa de matérias-primas assegura 15 anos de receitas a Angola e Brasil, diz Deutsche Bank

4 September 2006

Pequim, China, 04 Set – As importações chinesas das matérias-primas de Angola e Brasil vão continuar a crescer entre 10 e 20 por cento ao ano na próxima década e meia, o que põe os dois países de língua portuguesa entre os maiores beneficiários do crescimento chinês, conclui uma análise do banco alemão Deutsche Bank que a macauhub hoje obteve.

O estudo do Deutsche Bank prevê que África e a América Latina no geral, e Angola e o Brasil em particular, beneficiem da entrada de capitais provenientes da China, quer devido ao aumento de procura chinesa de matérias-primas quer devido ao aumento do investimento chinês, “guiado por considerações económicas, políticas e estratégicas.”

Quanto à importação de matérias-primas, o banco prevê aumentos na importação de materiais indispensáveis à produção e crescimento industriais chineses e um aumento na procura de produtos agrícolas, causado pela diminuição de terras aráveis e aumentos dos rendimentos das famílias.

“As nossas projecções demonstram que o crescimento da procura chinesa de petróleo, cobre, minério de ferro, manganésio, madeira e carne vai manter-se entre 10 e 20 por cento durante a próxima década,” refere o estudo do banco alemão, realçando que Angola e o Brasil são dos países que mais vão beneficiar da procura chinesa.

“Para os países africanos produtores de petróleo, como Angola, a necessidade chinesa de cada vez mais petróleo e derivados será uma das maiores fontes de crescimento económico,” diz o banco.

Na actualidade, Angola extrai cerca de 1,4 milhões de barris diários de petróleo, exportando para a China mais de 500 mil barris por dia. Angola foi o maior fornecedor de petróleo da China no primeiro semestre de 2006.

A China é, a seguir aos Estados Unidos, o segundo maior consumidor mundial de petróleo, com um consumo de 318 milhões de toneladas em 2005, tendo importado cerca de 40 por cento do total, ou 127,2 milhões de toneladas.

Angola, de acordo com a Direcção de Estatísticas Comerciais do Fundo Monetário Internacional, foi em 2005 a maior fonte africana de importações chinesas, assegurando 41 por cento das exportações do continente para a China.

O Deutsche Bank prevê, para o período entre 2006 e 2010, um crescimento médio de 20 por cento por ano nas importações chinesas de petróleo, carvão e carne, aumentos médios de 10 por cento na importação de minério de ferro, cobre, manganésio e madeira.

O Brasil é o terceiro maior fornecedor de minério de ferro à China e, nos dois primeiros meses deste ano, as exportações brasileiras da matéria-prima somaram cerca de 313 milhões de dólares, um aumento de 173 por cento face a igual período de 2005.

O Brasil é o maior parceiro comercial chinês na América Latina, enquanto a China é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil, uma relação comercial bilateral muito apoiada no minério de ferro, a principal exportação brasileira para a China.

O gigante asiático é o maior consumidor mundial da matéria-prima, responsável por pouco mais de 40 por cento das importações globais, mas é no crescimento do consumo de matérias-primas agrícolas que o Deutsche Bank prevê as maiores oportunidades para os produtores brasileiros.

“O aumento chinês do consumo de carne é uma enorme oportunidade para o Brasil, o segundo maior produtor mundial, que já fornece cerca de 11 por cento da carne consumida na China,” prevê a pesquisa do banco alemão.

“Considerando que o consumo médio chinês de carne é de 50 quilos por pessoa por ano, significativamente abaixo da média anual de 130 quilos nos Estados Unidos, o aumento no consumo deve manter-se e mesmo acelerar. Por outro lado, a escassez de terra para pastagens de gado poderá impulsionar ainda mais a importação chinesa de carne,” adianta.

Para se distinguirem da indústria chinesa de carne, o banco aconselha os produtores brasileiros a “cobrir nichos de mercado como produtos de carne de vaca ecológicos ou de elevada qualidade, para as quais a procura deve crescer em paralelo com o aumento do nível de vida.”

Para o Brasil, a pior notícia da análise do Deutsche é a previsão de quatro por cento no crescimento médio anual da importação chinesa da soja, a principal exportação brasileira para a China, responsável por 25 por cento do total das exportações em 2005, ou 1,7 mil milhões de dólares americanos.

A China compra cerca de um terço de toda a soja produzida no Brasil. Dados da embaixada brasileira em Pequim indicam que em 2005 o Brasil exportou 20 milhões de toneladas de soja, sendo 35 por cento com destino à China.

“Apesar do aumento do consumo humano de soja, a procura de soja para rações animais deverá descer, com o declínio da indústria pecuária e o aumento da umportação de carne,” diz o banco.

“A China é também o maior importador mundial de pasta de papel e foi responsável em 2004 por 20 por cento das importações mundiais. O Brasil é um dos seus parceiros princiapis, tendo assegurado oito por cento das importações chinesas de pasta de pale em 2004,” consideram os analistas do Deutsche Bank.

O banco acredita também que o investimento chinês em África e na América Latina vai “aumentar substancialmente nos próximos anos, à medida que a China vai tentar assegurar cada vez mais recursos num ambiente onde os preços das matérias-primas vão subir cada vez mais.”

Na actualidade, apenas o Sudão, a Zâmbia, o Perú e o México fazem parte da lista dos vinte principais destinos do investimento directo chinês, segundo dados da casa de análises “Global Insight,” mas o Deutsche Bank prevê alterações na estrutura do investimento.

“Numa pesquisa sobre as intenções de investimento num cenário entre dois e cinco anos, as empresas chinesas indicaram que a percentagem total do investimento directo estrangeiro destinado a África e à América Latina poderá aumentar até 15 por cento e 11 por cento do total,” afirma o banco. (macauhub)

MACAUHUB FRENCH