Recursos energéticos e tecnologia motivam o investimento da China no estrangeiro

23 October 2006

Pequim, China, 23 Out – A necessidade de assegurar o acesso a recursos energéticos e matérias-primas e de adquirir tecnologia, marcas e conhecimento serão os factores que mais vão contribuir para fazer crescer o investimento chinês no estrangeiro, refere uma recente análise do banco alemão Deutsche Bank.

O estudo do departamento de pesquisa do Deutsche Bank refere ainda que o investimento directo estrangeiro (IDE) chinês beneficia de incentivos governamentais e que as fusões e aquisições fora do país são já o veículo dominante do IDE chinês.

“A China está a emergir como um investidor global, reflectindo a cada vez maior integração do país na economia global mas também a necessidade chinesa de abrir mercados no estrangeiro”, afirma o estudo, que refere que, entre 2005 e 2010, o IDE chinês deverá aumentar mais de 20 por cento, ou 60 mil milhões de dólares.

A pesquisa do Deutsche Bank avisa, no entanto, que apesar do investimento chinês fora do país ter aumentado 93 por cento em 2004 para 5,5 mil milhões de dólares e 26 por cento em 2005, para 6,92 mil milhões de dólares, entre 15 e 20 por cento do valor total de 2005 refere-se a capitais que saíram do país para voltar como investimento estrangeiro na China, beneficiando das condições preferenciais que Pequim dá aos investidores estrangeiros.

Garantir o acesso a fontes de energia e a matérias-primas é a principal motivação que faz as empresas chinesas investir no estrangeiro e é impossível de dissociar dos objectivos políticos e diplomáticos do governo chinês, refere o estudo.

“O IDE em busca de recursos das grandes empresas petrolíferas chinesas está intimamente ligado à concretização de uma agenda de segurança energética nacional seguida pelo governo…encorajando as empresas energéticas chinesas a assegurar no mercado internacional activos energéticos e acordos de fornecimento”, diz o banco.

“Entretanto, as autoridades chinesas têm vindo a cortejar agressivamente os governos dos países receptores, fortalecendo as relações bilaterais, oferecendo ajuda ao desenvolvimento e fornecendo infra-estruturas de transportes e comunicações,”acrescenta.

A segunda grande motivação dos investidores chineses no mercado global, de acordo com a mesma pesquisa, é a tentativa de adquirir o que ainda falta no sistema empresarial chinês, como patentes, sistemas logísticos, marcas e conhecimentos.

“O investimento das empresas chinesas no estrangeiro prende-se também com o esforço para adquirir tecnologia avançada, marcas conhecidas, redes de distribuição e competências de gestão, que ganhou maior ímpeto com o reconhecimento, por parte das empresas estatais e privadas, da necessidade de reforçar a competitividade, em especial após a entrada do país na Organização Mundial de Comércio em 2001”, refere a análise do banco alemão.

Um terceiro facto leva, de acordo com o Deutsche, as empresas chinesas a investir fora do país – a pressão da concorrência no mercado interno, com a consequente diminuição de margens de lucro.

“O objectivo é a criação de plataformas fora da China a partir das quais as empresas possam ganhar acesso aos mercados locais, bem como vantagens competitivas através de economias de escala e de maior eficiência na produção, uma tendência que se verifica sobretudo na produção de electrodomésticos e em produtos eléctricos de grande consumo”, defendem os analistas do banco alemão.

Os mesmos analistas, que dizem que “o acesso de empresas chinesas a empréstimos preferenciais por parte dos bancos domésticos, propriedade do estado, podem auxiliar a expansão”, adiantam que o governo central chinês apoia a estratégia de internacionalização das empresas do país, na sua maioria grandes empresas de capital estatal, devido a uma “agenda política de nacionalismo económico, concentrada nas questões de segurança energética, posicionamento geopolítica e competitividade nacional”.

“O apoio da China à internacionalização das empresas chinesas é feito de diferentes formas, como o atenuar do controlo de divisas em 2003, subsídios directos e indirectos e a oferta de financiamentos favoráveis na forma de linhas de crédito e emprestemos s juros baixos por parte das instituições financeiras estatais”, refere o estudo.

Uma forma mais indirecta de apoio estatal chinês à internacionalização das empresas do país, de acordo com o banco, é a oferta por Pequim de ajuda condicionada às economias em desenvolvimento em África, Ásia e América Latina, para financiar projectos a aplicar no terreno por empresas chinesas.

De acordo com o Deutsche Bank, enquanto a China continuar a necessitar de fornecimentos seguros de matérias-primas e energia para alimentar uma economia que cresceu 10,4 por cento no terceiro semestre de 2006, 10,7 por cento nos primeiros nove meses do ano e 10,2 por cento no total de 2005, é de prever que o país seja fonte de investimento noutros países, para além de ser o terceiro maior destino mundial de investimento directo estrangeiro segundo o Relatório Mundial de Investimentos de 2006 da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento.

Por outro lado, quanto a perspectivas futuras, o banco prevê que cada vez mais a internacionalização da economia chinesa abandone as considerações políticas e diplomáticas e vá no sentido de maximizar no exterior os factores de competitividade no país.

“A maioria das empresas chinesas que planeia investir no estrangeiro nos próximos cinco anos é de sectores da economia nos quais – à excepção do sector automóvel – os produtores chineses beneficiam de vantagens comparativas globais, tais como manufacturas eléctricas e a indústria ligeira”, conclui o Deutsche Bank. (macauhub)

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