Autonomia, visão de longo prazo e conhecer “pormenores” vistos como essenciais para investidores na abordagem a Angola

15 October 2007

Lisboa, Portugal, 15 Out – A autonomia e visão de longo prazo do negócio e particularmente “conhecer os pormenores” da realidade de Angola são considerados pelos empresários e gestores portugueses elementos essenciais ao sucesso das iniciativas empresariais neste mercado, hoje um dos mais promissores de África.

Alguns dos principais agentes empresariais portugueses em Angola salientam, em recente reportagem da revista lusa Exame, as oportunidades que oferece o crescimento do mercado, que tem vindo a ganhar peso no comércio externo do país europeu, mas deixam também alguns alertas, como para a necessidade de encontrar um parceiro local, para ultrapassar as diferenças de procedimentos existentes.

“Os procedimentos são burocráticos e lentos e nem sempre lineares. Nós fomos com a ajuda de locais, pessoas que já estavam a trabalhar com Portugal e Angola. Numa fase de instalação é que voámos com as nossas asas. É um país com regras que não são lineares para um europeu”, afirmou à revista portuguesa Vasco Teixeira, sócio gerente da Porto Editora.

Carlos Bayan Ferreira, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portugal Angola, salienta ainda a necessidade de haver certezas quando à idoneidade do parceiro em causa, dado que “os gabinetes de advogados e os bancos que financiam os projectos normalmente não querem envolver-se com partes que não sejam de confiança”.

Os dados mais recentes indicam que pode demorar 143 dias a constituição de uma empresa em Angola, o que levou o governo a avançar com o GUE – Gabinete Único de Empresa, que promete agilizar o processo.

Nuno Neves, administrador da empresa pesqueira Starfish (grupo Escom – Espírito Santo Commerce) salienta a necessidade de haver capacidade para investir de forma intensiva e conhecer os detalhes do mercado, além de estar preparado para as dificuldades de criar uma sociedade, particularmente fora de Luanda.

“Quando se investe aqui é como montar um negócio na Lua. Não há nada”, afirma o gestor da empresa que opera no Namibe, extremo sul de Angola.

Assim sendo, salientou ainda, nos negócios de pescas e agricultura, “é preciso ser-se autónomo”, pelo que a Starfish produz gelo, tem o seu próprio centro médico, cozinha e ainda geradores, para contornar as constantes falhas de electricidade.

No mesmo sentido, Arnaldo Figueiredo, presidente da Mota-Engil, construtora presente há 60 anos no mercado angolano, lembra que o investidor em Angola tem de estar preparado para tudo.

“As probabilidades de aterrar em Luanda e nem conseguir sair do aeroporto são enormes”, exemplifica o gestor português, aludindo ao facto de no Aeroporto 4 de Fevereiro, serem raros os táxis e os stands de aluguer de automóvel inexistentes.

“Qualquer investidor deve estudar bem o potencial de negócio, se há mercado interno para os produtos, se é possível vender para países limítrofes”, adianta à reportagem da revista Exame o presidente da Mota-Engil, construtora que tem actualmente perto de 100 estaleiros de obra em Angola.

Apesar de não ter aderido ainda ao pacto comercial da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC), Angola tem condições vantajosas no acesso aos mercados dos países membros da organização regional, em que se incluem ainda Botsuana, República Democrática do Congo, Lesoto, Madagáscar, Malaui, Ilhas Maurícias, Moçambique, Namíbia, África do Sul, Suazilândia, Tanzânia, Zâmbia e Zimbabué.

Muitas empresas portuguesas com importante presença em Angola, como a Portugal Telecom e a Mota-Engil, têm vindo a apostar em adquirir dimensão regional.

“É preciso ter a noção de que a maior parte dos projectos não é de curto prazo”, exigindo capacidade de adaptação e de investimento, afirma Bayan Ferreira, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Angolana.

Portugal tem vindo a assumir-se como principal fonte de importações de Angola, além de importante investidor nos sectores não petrolíferos da economia.

De 11 milhões de dólares em 1996, o investimento português na ex-colónia disparou para 330 milhões no ano passado, que foi marcado por uma visita “em peso” do governo português a Luanda, em que os acordos de carácter económico assumiram lugar de relevo.

Actualmente, existem vários sistemas de apoio ao investimento no país a partir de Portugal – o SIME Internacional (incentivo a micro, pequenas e médias empresas da indústria, construção, comércio, turismo, serviços e transportes), o fundo auto-renovável do Banco Europeu de Investimento, a linha de 300 milhões de euros de seguros de crédito da Cosec, além das linhas de financiamento específicas criadas pelos principais bancos privados, BES, BPI, Millennium BCP e Totta Santander.

Entre as principais dificuldades na abordagem ao mercado angolano, o artigo da Exame coloca o “dispendioso” imobiliário, indicando que em Luanda o custo médio de arrendamento de um escritório ou loja comercial varia entre 14 e 50 euros por metro quadrado.

A compra do mesmo tipo de instalações, adianta, custa entre 1440 a 3600 euros o metro quadrado e são ainda raros e praticamente inexistentes fora de Luanda parques industriais com as condições mínimas, numa altura em que estão em projecto sete pólos industriais no país.

No caso de ser encontrado o espaço necessário, é grande a probabilidade de necessitar de obras de recuperação, geradores de electricidade, tanques e bombas de água, além dos serviços de uma empresa de segurança.

Quanto à mão-de-obra existem carências, sobretudo de quadros qualificados, muito disputados pelas grandes empresas presentes no país, pelo que formação profissional é essencial.

Bastante desenvolvido está o sector financeiro, que conta já com 17 bancos, e exemplo da sua pujança está numa das mais jovens instituições financeiras privadas, o Banco BIC, detido pelo empresário português Américo Amorim e por Isabel dos Santos, uma das filhas do presidente José Eduardo dos Santos.

“O banco tem dois anos e já abriu 71 agências. Começámos como o 12º banco e, hoje, somos o terceiro em crédito concedido. Somos a quarta instituição em depósitos com cerca de 1,5 mil milhões de dólares de depósitos em carteira. Temos crédito aprovado de 1,7 mil milhões de dólares dos quais 800 milhões utilizados. Temos muito crédito ao sector imobiliário e hoteleiro”, afirmou o presidente do banco Fernando Teles, que anteriormente liderou o bem sucedido projecto do Banco de Fomento Angola, grupo BPI, hoje a maior instituição financeira privada.

De acordo com a reportagem da Exame, a trajectória ascendente da banca angolana já despertou a cobiça dos maiores bancos sul-africanos – Standard Bank, First National Bank e ABSA, que estão inclusivamente a analisar possíveis aquisições.

Além das infra-estruturas e do petróleo e gás, sectores cujo crescimento está a sustentar o da economia angolana, importantes eventos desportivos prometem trazer animação à economia angolana nos próximos anos, salienta.

Entre estes destaca-se o Campeonato Africano das Nações, em 2010, que deverá envolver a construção de quatro estádios de futebol e a edificação de hotéis um pouco por todo o país. (macauhub)

MACAUHUB FRENCH