Setecentos milhões de dólares prometem levar Moçambique à vanguarda na produção de biocombustíveis em África

29 October 2007

Maputo, Moçambique, 29 Out – O investimento comprometido em projectos de produção de biocombustíveis em Moçambique ascende já a 700 milhões de dólares que prometem colocar o país na vanguarda da produção de energia “limpa” em África.

A estratégia governamental de aumentar a produção de combustíveis de origem vegetal vinha sendo pontuada por vários anúncios de investimentos de pequena e média dimensão, mas vai ganhando agora outra expressão, depois de a brasileira Petrobras e a italiana Eni terem anunciado estar em conversações de lançar projectos em Moçambique, e de, já este mês, ter sido formalizado o contrato de investimento da Central African Mining and Exploration Company (CAMEC) no sector.

A CAMEC, historicamente ligada à exploração mineira e comercialização de produtos agrícolas em África, compromete-se a investir nos próximos anos 510 milhões de dólares na produção de 120 milhões de litros de etanol a partir de cana-de-açúcar, no distrito de Massingir, província de Gaza, além de electricidade para consumo local.

O projecto prevê um plantio total de 30 mil hectares, o emprego de cerca de sete mil pessoas e um rendimento anual de 40 milhões de dólares, a partir do arranque, em 2010.

A aposta nos biocombustíveis é global e particularmente atraente nos países africanos, que regra geral têm solos férteis dispononíveis em abundância, condições climáticas adequadas à plantação da generalidade das matérias-primas mais ricas em óleos de qualidade, além de mão-de-obra barata e em grande quantidade.

Moçambique vai colhendo os frutos da estabilidade política e posição favorável – em comparação com os países africanos – nos índices de governação, que há fizeram com que caísse nas boas graças das instituições internacionais de apoio ao desenvolvimento, dos doadores e dos investidores.

Mahomed Rafique, director do Centro de Promoção de Investimentos, afirmava na semana passada que o investimento estrangeiro no país deverá atingir este ano 9 mil milhões de dólares, pulverizando as anteriores marcas de 2005 (1.200 milhões de dólares) e 2006 (1.100 milhões).

A sustentar este crescimento, adiantava, está o projecto da refinaria de Nacala (5.000 milhões de dólares), o projecto da CAMEC (510 milhões) e ainda “dois outros grandes projectos em análise”, que não especificou.

No sector dos biocombustíveis aguarda-se que a italiana Eni e a congénere Petrobras detalhem o acordo de parceria anunciado em Março deste ano para a produção de etanol e biodiesel em Moçambique, depois de em Angola, o outro “alvo” africano então definido, já terem sido apresentados pormenores de um primeiro projecto.

Recentemente, foi notado em diversos meios de comunicação locais a passagem por Maputo do director da Petrobras para os mercados internacionais, Nestor Cerveró, para reuniões de trabalho com o ministro da Energia moçambicano.

O Brasil, que ombreia com os Estados Unidos na liderança na produção mundial de etanol, tem vindo a posicionar-se como parceiro privilegiado de Moçambique, a nível público e privado e o acolhimento do executivo moçambicano tem sido total.

Aliás, o ponto alto da visita que em Setembro o presidente Armando Guebuza fez ao Brasil foi um acordo de cooperação bilateral na área dos biocombustíveis, prevendo intercâmbio técnico, formação de profissionais moçambicanos no sector e apoio brasileiro a programas de comercialização e uso de etanol e biodiesel no país africano.

Os dois países acordaram ainda a criação de um grupo de trabalho, com representantes de ambos os governos, que até Março do próximo ano vai trazer à luz do dia um relatório sobre as condições para produção de biocombustíveis em Moçambique, usando o chamado “modelo brasileiro” – que está centrado no cultivo intensivo de versões geneticamente melhoradas de cana-de-açúcar, com altos índices de produtividade, por oposição ao norte-americano, que aposta no milho.

Um anterior estudo sobre o potencial dos biocombustíveis em Moçambique, encomendado pelo governo à consultora norte-americana Ecoenergy, sugeria que a jatrofa (pinhão-manso), rícino, palmeira africana e cocos cultivados no país reúnem condições para produção de biodiesel.

Cana-de-açúcar, milho e mandioca podem ser utilizados para a produção de etanol, concluía o mesmo estudo.

Estima-se que o país tenha capacidade para produzir perto de 40 milhões de litros de biodiesel anualmente, além de 21 milhões de litros de etanol, numa área de perto de cinco milhões de hectares.

Para definir uma estratégia global para o desenvolvimento deste sector – estabelecendo prioridades em relação a regiões de plantio, matérias-primas, tecnologias, mercados – o governo está a ultimar um plano de desenvolvimento, que, segundo afirmou recentemente o ministro da Energia, Salvador Namburete, será apresentado até final deste ano.

A promoção deste sector é vista não só como um instrumento de captação de investimento e estímulo do crescimento económico, de levar o desenvolvimento a zonas carenciadas do país, como também para diminuir a dependência do país em relação aos combustíveis fósseis, na importação dos quais são gastos anualmente perto de 170 milhões de dólares.

Para apoiar Moçambique a aumentar a independência energética através dos combustíveis de origem vegetal, a cooperação da Suécia tem desde Maio deste ano no terreno técnicos a ajudar ao desenvolvimento de projectos, graças a um memorando de entendimento bilateral.

Até ao anúncio do investimento da CAMEC, o principal projecto de produção de biocombustíveis conhecido no país era o da petrolífera estatal Petromoc e da cooperativa agrícola Cofamosa, no valor de perto de 125 milhões de dólares.

Este prevê a criação de uma destilaria de etanol no distrito da Moamba, onde, numa primeira fase, serão usados perto de 10 mil hectares no cultivo de cana-de-açúcar e, numa segunda fase, 29 mil.

Outro projecto está a ser promovido pelo próprio governo, prevendo um investimento de 14 milhões de dólares numa fábrica de etanol, a partir de cana-de-açúcar, na província de Maputo, para exportação para a União Europeia.

Já a Mozambique Biofuels Industries (MBI), de capitais sul-africanos, prevê investir perto de 18 milhões de dólares numa plantação de 500 mil hectares de oleaginosas, para produção de etanol, e um montante adicional na instalação de uma unidade de destilação.

Mais recentemente, a canadiana Energem Resources anunciou que vai investir até 5,5 milhões de dólares na produção de biodiesel a partir de pinhão-manso, numa área de cinco mil hectares, que em “velocidade de cruzeiro do projecto” deverá ascender a 60 mil hectares. (macauhub)

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