Projecto do porto de Buba, na Guiné-Bissau, retomado com capital angolano

5 November 2007

Bissau, Guiné-Bissau, 05 Nov – O porto de Buba, na Guiné-Bissau, projecto idealizado pela autoridade colonial portuguesa e mais tarde pela União Soviética, vai ser retomado com capital angolano, numa afirmação clara da apetência de Luanda pela região.

O investimento total previsto no projecto é de 500 milhões de dólares, a assegurar por privados angolanos e a contrapartida será a exploração do porto e também o negócio da extracção da bauxite, numa altura em que os mercados internacionais de matérias-primas marcam máximos históricos.

A exportação da bauxite extraída na região do Boé, segundo relata a newsletter Africa Monitor, estará a cargo da empresa Angola Bauxite, e implica a existência de uma unidade portuária de grandes dimensões em Buba, mas o projecto contempla uma outra componente para rentabilizar o investimento na construção.

Está prevista a construção de via férrea de ligação ao Mali e Burkina Faso, para que o trânsito de produtos para estes países do “hinterland” próximo passe a poder efectuar-se por Buba.

Esta componente está a criar algum incómodo em Dacar e Abidjan, cujos portos passariam a ter um concorrente importante no trânsito de mercadorias para o interior da região.

O ministro dos transportes de Angola, André Brandão, também ligado ao projecto, esteve recentemente em Abidjan, aparentemente com o intuito de tranquilizar as autoridades senegalesas, que já haviam manifestado apreensão, de acordo com a “newsletter” editada em Lisboa.

As condições naturais de Buba – sobretudo a profundidade das suas águas e amplidão da zona abrigada – permitem que a infra-estrutura receba navios de grande calado, além de que está geograficamente próximo de zonas de exploração mineira e de grandes centros económicos do Mali e Burkina Faso.

O Africa Monitor adianta que à cabeça do projecto está Higino Carneiro, ministro das Obras Públicas angolano, que tem vindo a deslocar-se assiduamente à Guiné-Bissau, a última vez integrando a comitiva do primeiro-ministro Fernando Piedade dos Santos.

De igual modo, em menos de um mês recebeu por duas vezes o seu congénere guineense, Rui Araújo, na capital angolana.

Ligado ao projecto surge a barragem hidroeléctrica do Saltinho, que permitiria satisfazer as necessidades energéticas das principais infra-estruturas.

A concretizar-se, será a realização de planos que datam primeiro da administração colonial portuguesa e depois da ligação guineense à União Soviética, que aspirava construir em Buba uma base militar naval.

A intenção de Angola promover um projecto desta envergadura na Guiné-Bissau está a ser interpretado como tendente a reforçar a influência na África Ocidental e Golfo da Guiné.

Um primeiro passo no âmbito desta estratégia foi dado com o recente impulso para reactivação da Comissão do Golfo da Guiné, organização vocacionada para a cooperação económica, desenvolvimento e segurança, que vai passar a estar sedeada na capital angolana.

Luanda terá tido um papel fundamental na escolha do novo secretário-executivo – o são-tomense Carlos Gomes, antigo director executivo da autoridade da zona de desenvolvimento conjunto de petróleo STP/Nigéria.

A cerimónia de tomada de posse teve lugar em Março, na capital do Gabão, com a presença do presidente são-tomense, Fradique de Menezes, mas o grande impulso à recriação da organização, que desde a fundação em1999 tinha dado poucos sinais de vida, foi dado pelo seu homólogo angolano.

Em São Tomé está outra “lança” angolana, patente na verdadeira catadupa de acordos de cooperação entre empresas dos dois países assinados nos últimos tempos.

No sector petrolífero, a agência nacional de petróleo de São Tome e Príncipe assinou recentemente um memorando de entendimento com a petrolífera estatal angolana, a Sonangol, tendo em vista abrir caminho a uma parceria entre as duas partes.

Nos transportes, a angolana Taag está no consórcio vencedor da privatização da nova companhia aérea são-tomense, a STP Airways, que substituiu a desaparecida Air São Tomé.

Operação idêntica deverá passar a Taag a assegurar também a partir de Bissau, tendo o ministro dos Transportes guineense admitido recentemente que estão num estado “avançado” as negociações de parceria entre a Taag e a Air Bissau que, pelos acordos aéreos com Portugal, dispõe de uma ligação a Lisboa.

No final de Março, São Tomé e Príncipe recebeu a pouco frequente visita de uma delegação de empresários angolanos, nomeadamente da banca e turismo, com o objectivo declarado de “avaliar eventuais investimentos” no arquipélago, que se mostra disponível para parcerias entre empresas dos dois países no sector das infra-estruturas e da agricultura.

A aposta de agentes económicos angolanos em países de língua portuguesa é também vista por analistas como uma forma de lidar com o excesso de liquidez que muitos deles actualmente registam, nomeadamente os ligados ao sector petrolífero.

Em destaque tem estado a petrolífera estatal Sonangol, com as suas dispendiosas aquisições em Portugal – primeiro uma participação na congénere Galp, depois cinco por cento do maior banco privado, Millennium Bcp.

Na semana passada, Moçambique recebeu uma importante comitiva angolana, encabeçada pelo presidente José Eduardo dos Santos, tendo sido assinados acordos de cooperação bilaterais para os sectores petrolífero, de ciência e tecnologia, educação superior, energia, geologia e minas, comunicação social, pescas, obras públicas e desenvolvimento empresarial.

O presidente Eduardo dos Santos manifestou publicamente a disponibilidade de Angola para colocar “toda a experiência e saber” no domínio petrolífero ao serviço de Maputo, onde estão em curso trabalhos de exploração, e uma nova ronda de licitações de licenças a ser preparada. (macauhub)

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