Investidor em Angola deve acautelar necessidades de mão-de-obra qualificada, alertam especialistas

11 February 2008

Lisboa, Portugal, 11 Fev – A escassez de mão-de-obra qualificada em Angola, absorvida pela indústria extractiva e pelo sector financeiro, obriga a que os investidores acautelem as suas necessidades específicas, nomeadamente através de planos de formação, antes de abordarem o mercado, alertam especialistas.

“O número de angolanos que saem anualmente as universidades com os seus estudos terminados não corresponde ainda às necessidades do mercado e este é um assunto vital. Confiamos, porém, que esta carência esteja já bastante debelada no prazo de cinco ou seis anos”, afirma João Martins Tojo, consultor sénior da consultora KPMG Angola, num suplemento dedicado ao país recentemente publicado em Lisboa pelo jornal Diário Económico.

O assunto tem merecido a atenção de diversos investigadores económicos angolanos, com alguns a afirmarem mesmo que a escassez de mão-de-obra qualificada pode pôr em causa os objectivos de crescimento da economia não-petrolífera; preocupado com a situação, o governo angolano tem vindo a acelerar a aprovação de estabelecimentos de ensino superior em todo o país.

“Embora haja muitos angolanos qualificados, simplesmente não os há em número suficiente devido à expansão do mercado, e os que há são captados pelos sectores mais pujantes, sobretudo o petrolífero e o financeiro”, adianta o mesmo responsável da KPMG.

A opinião é partilhada por Emídio Pinheiro, presidente do Banco Fomento Angola, do grupo português BPI, actualmente um dos líderes da banca privada no país africano.

“Apesar de existirem ainda sérias limitações em termos de formação de quadros, não duvidamos em oferecer oportunidades”, contratando e formando no posto de trabalho, afirma Pinheiro.

Numa experiência que considera positiva, o gestor adianta que actualmente perto de 65 por cento dos trabalhadores do banco privado têm estudos universitários.

“A postura adequada é vir para este país com experiência e determinação, e, claro está, trazendo os melhores quadros directivos de que a empresa disponha, porque é um mercado exigente em termos de capacidade de gestão. Geralmente, quando se conta com essa capacidade, a experiência corre bem”, afirma o gestor português na referida publicação.

Carlos Bayan Ferreira, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portugal-Angola, qualifica mesmo a questão da falta de formação de mão-de-obra como “o mais acentuado” dos problemas actuais da economia angolana.

“No entanto, qualquer carência se converte em Angola numa oportunidade, e este factor não é uma excepção. As empresas e instituições dedicadas à formação de recursos humanos têm em Angola um mercado interessantíssimo, já que há uma necessidade urgente para cobrir nesse terreno”, adianta o gestor português, quadro da Galp Energia, na mesma separata do Diário Económico.

No mesmo sentido, identifica na carência de infra-estruturas uma fragilidade, mas também um manancial de oportunidades para empresas angolanas e internacionais.

“Esta carência pode ser interpretada em termos de oportunidade para as empresas desse ramo. Um ramo onde, apesar da presença chinesa, Portugal continua a ser responsável pelas obras mais emblemáticas, como a sede da Sonangol, obra do consórcio entre a Soares da Costa e a Mota-Engil”, afirma Bayan Ferreira.

Outra recomendação dada pelos especialistas aos investidores interessados no mercado angolano é que o façam em parceria com agentes locais.

“Apesar de não ser obrigatório investir dessa forma, continua a ser a melhor maneira de uma empresa se adaptar ao mercado angolano e de obter ajudas, quer por parte de ambos os governos, quer por parte das instituições financeiras dos dois países. Isto permite às empresas ver os seus investimentos numa perspectiva de médio e longo prazos, ou seja, para ficar”, refere Carlos Bayan Ferreira.

Para o presidente da Câmara de Comércio, é importante que o investidor traga “um projecto de longo prazo”, uma vez que as dificuldades – ao nível das infra-estruturas e da administração pública – “pedem uma certa paciência”.

“Angola é um país rico e isso traz consigo certezas tranquilizadoras. Não tem graves problemas financeiros, como prova o facto de pôr em causa diversas condições do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, quando julga ser conveniente. Tem uma autonomia internacional não absoluta, mas significativa. As reservas monetárias fecharam 2007 com cerca de 12 mil milhões de dólares. Esta é uma garantia no momento de fazer negócios em Angola, sobretudo no que respeita aos pagamentos e este dado distingue Angola de outros países africanos”, afirma Bayan Ferreira.

Paul de Sousa, presidente da KPMG Angola, afirma mesmo que portugueses e brasileiros têm em relação aos investidores de outras latitudes a vantagem estratégica de partilharem a mesma língua dos angolanos.

“O melhor modo de entrar no mercado angolano é através de uma parceria com um aliado angolano. Por isso, a formação dessas parcerias é potencialmente muito mais simples quando existe uma língua comum”, refere o analista, que considera os portugueses os investidores à partida melhor posicionados para abordar o mercado.

“Mesmo que ainda haja aspectos históricos que nalgum caso possam jogar contra, o balanço é enormemente favorável aos portugueses no que respeita à ligação cultural e linguística com Angola. Só falta ter humildade e pragmatismo no que a essa relação diz respeito”, afirma Paul de Sousa.

Quanto à vantagem de apostar em Angola – que este ano está no topo das previsões mundiais de crescimento económico – os analistas mostram também estar em sintonia.

“Não há dúvida de que Angola está repleta de oportunidades, como também não se podem discutir os muito significativos incentivos que o governo está a oferecer a quem quer estabelecer-se no país, sobretudo em alguns sectores prioritários. Em Luanda pode usufruir-se de uma isenção de impostos de oito anos. Noutras províncias, essa isenção estende-se aos quinze, o que representa um aliciante muito substancial”, afirma Paul de Sousa.

“Se bem que é óbvio que não se trata de um lugar fácil para fazer negócios e que existem dificuldades logísticas e burocráticas”, adianta o principal responsável da KPMG Angola, “não é menos verdade que as possibilidades são imensas”, com actividades económicas de todo o género por criar, e outras onde o nível de concorrência é baixo.

Pelo quarto ano consecutivo, a economia angolana cresceu em 2007 acima da média dos países da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), impulsionada pelo investimento público e privado, e pela maior actividade, em particular nas indústrias extractivas de petróleo e diamantes.

Carlos Bayan Ferreira vê mesmo em Angola uma potência económica em formação, que começa a mostrar as suas capacidades também como investidor no estrangeiro.

“Já se nota a potencialidade de Angola na internacionalização das suas próprias empresas, como é o caso da Sonangol, que já participa no capital de importantes empresas financeiras e de energia portuguesas. Nos próximos vinte anos, Angola vai ser um exemplo de crescimento para o mundo. Vai ser imparável”, afirma o gestor português. (macauhub)

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