Cabo Verde: Exemplo de “sofisticação” e diversificação das relações chinesas com África

17 March 2008

Macau, China, 17 Mar – Cabo Verde é exemplo de como nas relações da China com os países africanos a tendência é de “sofisticação” e diversificação e também de como os pequenos investidores estão a abrir caminho no fortalecimento dos laços económicos e comerciais, afirma o investigador Loro Horta.

Numa investigação recentemente publicada, Horta, da Escola de Estudos Internacionais S. Rajaratnam e da Universidade Tecnológica Nanyang (Singapura), afirma que a percepção ocidental das relações chinesas com África é “simplista” e que Cabo Verde o demonstra.

“A visão estereotipada de alguns quadrantes ocidentais é que a China e as empresas chinesas apenas estão interessadas em matérias-primas e lucros rápidos em África; e que mais facilmente se implantam em países despóticos e isolados internacionalmente, como o Zimbabué ou o Sudão. Isto é uma enorme simplificação”, afirma Loro Horta no estudo recentemente publicado.

Apesar de haver “comportamentos predatórios” da parte de actores chineses, adianta Horta, hoje em dia “as empresas chinesas são cada vez mais adaptáveis e capazes de serem bem sucedidas mesmo em países bem governados tradicionalmente ligados ao Ocidente”.

Cabo Verde é exemplo de que “as relações económicas da China com África estão a tornar-se cada vez mais sofisticadas e multidimensionais”.

Horta relembra alguns dos principais projectos chineses em curso no arquipélago e que Cabo Verde é um forte candidato a ser escolhido como uma das cinco zonas de cooperação económica chinesas em África.

“A zona económica especial de São Vicente seria em primeiro lugar desenvolvida como um centro de processamento de pesca industrial para atender às necessidades das várias frotas chinesas que operam no Atlântico. A China também espera fazer da ilha um ponto de passagem para o reabastecimento e apoio logístico aos milhares de navios chineses que atravessam o Atlântico Sul”, afirma o investigador.

Do outro lado do oceano, também tem sido dada conta de grandes investimentos chineses em portos brasileiros, em particular o de Salvador, no Estado da Bahia.

Em Cabo Verde, empresas públicas e privadas chinesas estão ligadas a projectos de grandes dimensões como o da primeira cimenteira do arquipélago, na ilha de Santiago, vários novos edifícios públicos, barragens, infra-estruturas básicas.

Vai ainda apoiar o fornecimento de navios para fazer a ligação entre as oito ilhas do arquipélago, oferece 100 bolsas de estudo a estudantes cabo-verdianos, disponibiliza médicos para os hospitais locais e cancelou recentemente a dívida cabo-verdiana.

“A influência da China vai continuar a crescer. Os grandes grupos empresariais públicos chineses estão a começar a demonstrar interesse e o governo chinês está a avançar em larga medida com financiamento”, refere Loro Horta.

Entre as áreas que apresentam maior potencial de reforço das relações económicas e comerciais está o sector marítimo, mas também o turismo, beneficiando do recentemente reconhecimento de Cabo Verde como destino turístico chinês.

“Com o seu clima quente e praias idílicas ornadas de palmeiras, Cabo Verde está bem posicionado para beneficiar da expansão do mercado turístico chinês. A estabilidade política e baixos níveis de crime e corrupção apenas aumentam o seu potencial de venda enquanto destino turístico”, refere o investigador.

Os primeiros projectos chineses de grande dimensão já começaram a surgir, primeiro o empreendimento do milionário de Macau David Chau, em Santa Maria, arredores da capital, tendo mais recentemente sido dado conta do interesse também de Stanley Ho em investir no turismo, jogo e lazer em Cabo Verde.

“O papel de Chau em Cabo Verde sublinha o crescente envolvimento de grandes empresários de Macau noutros pontos da África lusófona, incluindo em Angola e Moçambique”, afirma o investigador da Universidade Tecnológica Nanyang.

Contudo, foram os pequenos empreendedores que abriram caminho ao reforço das ligações económicas e comerciais entre China e Cabo Verde, numa altura em que estas se resumiam ao estritamente necessário para que o arquipélago se mantivesse do lado de Pequim na questão taiwanesa.

Os pequenos empreendedores começaram a chegar em meados da década de 1990 e “o seu número era reduzido a princípio, mas aumentou continuamente à medida que a economia local prosperava e as suas histórias de sucesso eram conhecidas”, um “padrão de investimento muito diferente do observado nos países ricos em petróleo, como Angola ou Sudão, onde grande empresas públicas chinesas abriram o caminho”.

Hoje, cerca de 200 lojas chinesas podem ser encontradas em Cabo Verde, sobretudo nas ilhas de Santiago e São Vicente, e a população chinesa deverá rondar 2.300 pessoas, a segunda maior comunidade estrangeira do arquipélago depois da portuguesa.

De um modo geral os “invasores” chineses foram “bem recebidos” pela população local e é reconhecido que os seus produtos apresentam preços substancialmente inferiores aos importados de Portugal e de outros países da União Europeia, além de que os proprietários imobiliários beneficiaram de um crescimento acentuado dos preços das rendas nas zonas urbanas.

Além da lição de que o investimento chinês está a diversificar-se, o caso de Cabo Verde demonstra que “os negócios privados de pequena dimensão podem estar a emergir fortemente como o elemento mais dinâmico do relacionamento da China com África”, afirma Loro Horta.

“Foi o sucesso de homens de negócios chineses em Cabo Verde que chamou a atenção de investidores de maior dimensão e do governo chinês, abrindo caminho à florescente relação que hoje existe”, adianta o investigador. (macauhub)

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