África: “Receita chinesa” contra pobreza pode servir países africanos

31 March 2008

Macau, China, 31 Mar – A “receita chinesa” contra a pobreza, que permitiu elevar nos últimos 25 anos o nível de vida de centenas de milhões de pessoas, pode funcionar para os países africanos, se derem prioridade à agricultura e fortalecerem as suas instituições estatais.

A conclusão é do investigador Martin Ravallion, no recente estudo “Existem lições para África do sucesso da China contra a pobreza?”, patrocinado pelo Banco Mundial, que parte da constatação histórica de que a China tinha um nível de pobreza muito mais elevado do que o dos países africanos, antes de profundas reformas económicas e sociais que permitiram aproximar-se rapidamente do nível dos países mais desenvolvidos.

“É claro que a combinação de políticas sãs com instituições estatais fortes foi um factor-chave no sucesso da China contra a pobreza. E também é claro que os dois ingredientes são complementares, não substitutos. Menos ideologia ajuda pouco se as instituições estatais forem fracas. As lições da China para África acerca da importância de `procurar a verdade nos factos´ na definição de políticas servirão de pouco se as intituições estatais africanas permanecerem fracas”, afirma o autor.

Dados apresentados por Ravallion demonstram que, desde a década de 1980, a percentagem de pessoas a viver com menos de um dólar por dia em África tem-se mantido acima dos 40 por cento, enquanto que na China caiu de perto de 66 por cento para menos de 10 por cento, o que se situa já muito abaixo da média do grupo dos outros países em desenvolvimento.

O principal motor, afirma, foi o impulso do sector primário possibilitado pela reforma do sistema colectivo de produção agrícola nos anos 1980 e na década seguinte pelo intenso crescimento da indústria exportadora que, estimulada por importantes fluxos de investimento estrangeiro (a partir de 1995), permitiu manter praticamente até aos dias de hoje o alento do aumento do nível de vida chinês.

Entre 1981 e 2004, cerca de 500 milhões de chineses terão saído da pobreza, enquanto que no mesmo período mais 130 milhões de africanos viviam com menos de um dólar por dia.

“Dadas as tão diferentes sortes dos seus pobres, muitas pessoas estão naturalmente a perguntar se a China pode ser o `exemplo económico a seguir´ para África. O investimento privado e ajuda da China podem bem trazer benefícios aos pobres africanos” e, além disso, as lições de políticas podem trazer ganhos a mais longo-prazo, diz Ravallion.

O autor traça as diferenças entre as duas realidades, nomeadamente a maior estabilidade social e política na China nos últimos anos e os obstáculos africanos de maior desigualdade de rendimentos, maior nível de dependência e menor densidade populacional, factores que contribuem para uma maior fraqueza das instituições estatais, que no caso da China tiveram um papel fulcral.

Além da abertura dos mercados e da necessidade de instituições estatais fortes, outras componentes da “receita chinesa” identificadas pelo autor são a integração dos mercados internos e a adopção eficaz de uma política de estabilização macroeconómica, em particular a capacidade de impedir choques inflacionistas.

Uma lição “altamente relevante” para os países africanos actualmente, considera, é que “uma estratégia (de desenvolvimento) baseada na agricultura tem por agora de estar no centro de qualquer fuga à pobreza, tal como aconteceu na China no início dos anos 1980”, devendo merecer total prioridade, e o continente ainda tem uma grande quantidade de terra disponível, distribuída de forma relativamente equitativa.

Quanto ao envolvimento chinês no continente, o autor defende que a potência asiática já demonstrou que, sendo aversa a interferências externas, “prefere que sejam os governos africanos a decidir o que podem aprender” e com quem, embora facilite o processo de aprendizagem através da disseminação do conhecimento e iniciativas de treino.(macauhub)

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