Angola/China: Reforçar o conhecimento mútuo e gerir o pós-reconstrução entre os principais desafios em relação ao futuro

14 April 2008

Londres, Grã-Bretanha, 14 Abr – Reforçar o conhecimento mútuo entre Angola e China e gerir o período após a reconstrução do país africano estão entre os principais desafios ao relacionamento entre os dois parceiros, que é considerado de longo prazo.

No estudo Angola e China: Uma Parceria Pragmática, recentemente publicado em Londres, os investigadores Indira Campos e Alex Vines consideram que os dois países vão beneficiar do crescimento da cooperação económica, mas que esta levanta para os ngolanos “desafios” na definição de políticas, desde logo a necessidade “urgente de melhor investigação e compreensão mútua”.

“A ausência de laços históricos, culturais e linguísticos entre China e Angola faz com que ambos os países estejam pouco preparados para fazer isto. Angola não tem um programa de língua chinesa actualmente”, afirmam os dois investigadores.

Contudo, são várias as iniciativas em fase de arranque, como a célula da Universidade Católica de Luanda criada em finais de 2007 para pesquisar o relacionamento com a China e as iniciativas do académico Lopo do Nascimento, “um dos poucos intelectuais angolanos a avaliar os impactos da longo prazo da China em África e das suas implicações para Angola”.

Segundo números apresentados pelos autores, o número de vistos concedidos anualmente a chineses em Angola aumentou mais de 100 vezes de 2004 para 2007: de menos de 200 para 22.100 no ano passado, tornando-se a maior comunidade estrangeira, à frente da dos portugueses.

Para os investigadores britânicos, também em Pequim o conhecimento sobre Angola é “reduzido”, pelo que, salientam, “ambos os governos precisam de dar passos mais agressivos para alargar a sua cooperação bilateral para além do diálogo da elite de negócios”.

Com o apoio de governos ocidentais, salientam, decorrem projectos de investigação sino-angolanos no Centro de Estudos Chineses da Universidade de Stellenbosch (África do Sul), Instituto sul-africano de Relações Internacionais, e também em instituições de ensino superior do Reino Unido e Estados Unidos, mas há outros desafios para os quais os dois países devem começar a preparar-se.

Os projectos de reconstrução estão a permitir a criação de emprego e a transferência de know-how para os angolanos, mas estes demonstram dificuldade em cumprir as suas obrigações contratuais, porque as empresas locais de qualidade já estão envolvidas em muitas frentes e outras não são consideradas em condições para o nível de exigência dos trabalhos.

Campos e Vines identificam ainda a necessidade de as autoridades angolanas estimularem uma reorganização das empresas locais, por forma a dotá-las de dimensão e capacidade para entrarem em parcerias com empresas chinesas, adquirindo know-how que permita que a prazo sejam entidades locais a prestar serviços básicos – a título de exemplo, salientam que o custo de transportes de materiais para Angola ronda actualmente os 800 milhões de dólares, quando existe uma transportadora (Secil Marítima), mas com poucas condições.

Quando estiverem concluídos os trabalhos de reconstrução, financiados pelas grandes linhas de crédito chinesas do Eximbank e do China International Fund (CIF), será levantada a questão da “sustentabilidade” das infraestruturas, salientam.

“Existem preocupações legítimas sobre a capacidade do governo manter tais investimentos depois da sua conclusão, tendo em conta as enormes carências do país quanto a capacidade humana e institucional. Embora o governo esteja a fazer esforços para treinar pessoas, seria irrealista pensar que o farão tão rápido quanto as infra-estruturas são construídas”, afirmam os autores do estudo.

Luanda, adiantam, “terá de dar mais atenção ao planeamento e organização para garantir a sustentabilidade e transferência de tecnologia – ou correr o risco de depender dos portugueses ou de outros terem de voltar no futuro para reconstruir o que os chineses acabaram de concluir”.

A China, salientam, é o maior financiador da reconstrução e deverá nos próximos anos tornar-se também no maior exportador, mas é notório um esforço de Luanda para diversificar as suas relações comerciais e económicas ao Brasil, África do Sul, Índia ou Portugal, que continua a ser a maior origem das importações angolanas.(macauhub)

MACAUHUB FRENCH