Petróleo: Italiana ENI e Estado português abrem alas para reforço da Sonangol na Galp Energia

4 August 2008

Lisboa, Portugal, 04 Ago – A Sonangol ficou com a via aberta para o controlo da Galp Energia, maior empresa portuguesa, depois de o Estado português ter anunciado a privatização da sua última parcela de capital e de a petrolífera italiana ENI ter admitido vender a sua participação.

“Não faz parte da nossa estratégia de longo prazo ficar com apenas 33,34% da Galp (…) ou controlamos a Galp ou poderemos alienar a nossa participação”, disse na quinta-feira Paolo Scaroni, presidente da ENI, petrolífera italiana que tem participação igual à da Amorim Energia, da Sonangol e grupo Amorim.

O executivo falava numa conferência com analistas realizada pouco depois de o governo português ter aprovado em Conselho de Ministros a venda dos últimos sete por cento que tem na Galp Energia.

Scaroni adiantou também que a situação na Galp deverá conhecer desenvolvimentos dentro de “três a cinco anos”, indicando portanto que pretende cumprir o acordo parassocial entre os accionistas, que determina que até fim de 2010 não pode ser alterada a estrutura accionista da Amorim Energia, “holding” participada por capitais angolanos que tem outros 33,4 por cento da empresa.

A Sonangol tem uma participação de 45 por cento na Amorim Energia, (titulada por uma entidade offshore, “Esperanza”), enquanto o grupo Amorim, a Caixa Galicia e duas entidades “offshore” anónimas têm os restantes 55 por cento.

A ENI é considerada uma aliada potencial da Sonangol, dado que tem antigos interesses na exploração de petróleo em Angola; já depois da entrada da Sonangol na Galp foi atribuída à Agip uma nova participação na exploração de petróleo em Angola.

De acordo com a imprensa portuguesa, a notícia da disponibilidade da ENI em vender a sua participação foi recebida com surpresa pelo governo português e pela Amorim Energia, enquanto que a Sonangol ainda não se pronunciou.

O Diário Económico escrevia que a ENI sempre manteve um relacionamento difícil com os restantes accionistas, mesmo depois do período de acalmia alcançado com a assinatura do acordo parassocial.

Afirmava ainda que Américo Amorim tem tornado público o seu interesse em reforçar o poder da Sonangol na estrutura accionista e de ensaiar uma aproximação aos russos da Gazprom, eventualmente com uma entrada no capital.

Mas, de acordo com analistas de mercado, não deverão faltar interessados na petrolífera portuguesa, tendo em conta sobretudo as suas participações na exploração de petróleo em Angola e Brasil, altamente valorizadas na actual conjuntura do mercado.

“O interesse das grandes petrolíferas não é só comprar reservas mas também ter controlo de decisão e operacional sobre o seu desenvolvimento”, afirmou ao diário português Rui Amendoeira, especialista em questões energéticas e advogado da Miranda Correia, Amendoeira & Associados.

Particularmente interessantes são actualmente as participações no poços de Tupi e Jupiter, no Brasil, que a Galp explora em parceria com a brasileira Petrobras.

Quanto à venda da participação do Estado Português (sete por cento), será feita numa operação pública de venda destinada a investidores institucionais e deverá render perto de mil milhões de euros.

Em 2006, a oferta pública inicial da Galp Energia resultou num encaixe de 1100 milhões de euros, através da alienação de 23% do capital da petrolífera, tendo cada acção um valor de 5,81 euros.

Agora, as acções valem praticamente o dobro, tendo fechado perto dos 12 euros depois das declarações de Paulo Scaroni, na quinta-feira.

Além da Galp Energia, a Sonangol tem vindo a investir em Portugal parte considerável das suas receitas recorde, sobretudo na constituição de uma participação de perto de 10 por cento no maior banco português, o Millennium bcp, que lhe dá o estatuto de maior accionista.

Segundo escrevia recentemente a “newsletter” Africa Monitor, estes investimentos foram ditados por uma “lógica económica e financeira” (segurança e retorno), mas constituem uma solução para lidar com o excesso de liquidez decorrentes da alta do petróleo e avolumados pela escassa capacidade de absorção da economia interna, para aumentar o prestígio externo da petrolífera, expandir ou influenciar sectores influentes da sociedade portuguesa e criar um ambiente propício ao investimento privado angolano – em Portugal e em países como a Espanha.

“Os excedentes de liquidez gerados pela acumulação constante das receitas do petróleo estavam aplicados em fundos internacionais de pensões ou convertidos em depósitos em contas offshore. Considerou-se mais conveniente, por razões de segurança e rentabilidade, investir em activos empresariais”, escrevia a mesma publicação.

Para a actividade operacional Sonangol, a Galp Energia permite também assimilar competências em áreas em que a empresa portuguesa é forte, como a refinação, o “trading” e o retalho. (macauhub)

MACAUHUB FRENCH