Angola/China: Apoio financeiro de Pequim assegura continuação da reconstrução angolana

23 December 2008

Macau, China, 23 Dez – Os projectos de reconstrução em Angola, dificultados pela perda de receitas petrolíferas e travagem no financiamento internacional, deverão manter-se em andamento graças ao apoio financeiro de Pequim, reafirmado na semana passada.

A segunda visita à China em apenas cinco meses, o presidente angolano José Eduardo dos Santos decorreu numa altura em que vários economistas e analistas consideram inevitável uma revisão do Orçamento de Estado para o próximo ano, que assenta numa previsão de 55 dólares para o preço do barril de petróleo, cenário optimista numa altura em que este ronda os 40 dólares, apesar dos sucessivos cortes de exportação dos grandes produtores.

Ricardo Gazel, economista do Banco Mundial, afirma que a previsível revisão orçamental poderá acontecer já em Abril de 2009, caso não haja alterações significativas na trajectória do preço do crude.

A confirmar-se a revisão, “o governo deverá cortar nalguns dos seus investimentos, mas manter os investimentos em curso (…) dando prioridade a projectos focados na protecção dos segmentos populacionais mais vulneráveis”, afirmou o economista na semana passada numa conferência em Luanda.

O plano de investimentos de Luanda para o próximo ano, que compreende a continuação da reconstrução de grande parte das infra-estruturas destruídas durante a guerra civil de mais de duas décadas, está avaliado em 42 mil milhões de dólares.

É das exportações de petróleo, que têm hoje na China o principal cliente, que Angola depende para obtenção de perto de 90 por cento das suas receitas.

Outra importante componente são as vendas de diamantes, que igualmente estão a ser afectadas por uma procura internacional deprimida, que já levou à suspensão de alguns dos principais projectos de exploração em Angola, entre eles o do Alto Cuílo (Petra Diamonds/ BHP Billiton), na Lunda Sul.

“Parece que Angola está a voltar à sua estratégia inicial de pedir empréstimos à China, com a crise financeira a tornar demasiado caro o crédito junto dos países ocidentais”, disse à Reuters o analista Richard Segal, do Bank of Africa.

Antes da partida para Pequim, Filipe Silva, secretário de Estado para a Água e Saneamento, afirmava à Rádio Nacional de Angola que o seu sector precisava de novas linhas de crédito para que os investimentos necessários pudessem prosseguir.

“O sector da água precisa de muitos investimentos e esta é a próxima grande área em que o governo pretende trabalhar e espera que a China seja capaz de ajudar no financiamento (…) O presidente faz esta visita para apelar a mais investimento financeiro da China”, dizia um alto responsável angolano sob anonimato à agência AFP.

O semanário Angolense noticiava que Angola pretendia mil milhões de dólares para construção de infra-estruturas e habitação ao longo dos próximos quatro anos.

De acordo com os dados do Ministério das Finanças angolano, ao abrigo da Linha de Crédito da China estavam adjudicados no final do ano passado projectos nos sectores de Energia e Águas num montante total de 243,8 milhões de dólares, cerca de um quinto do total disponível para investimentos.

Seguia-se o sector da Educação, com projectos num montante de 217,2 milhões de dólares, as Obras Públicas, com 211,7 milhões, e em quarto lugar a Saúde, com 206,1 milhões, à frente da Agricultura, Comunicação Social e Transportes.

O valor total da ajuda da China à reconstrução angolana deverá situar-se entre os cinco mil milhões de dólares e os sete mil milhões, crédito garantido pelas exportações petrolíferas angolanas para Pequim.

Só no ano passado, Angola emitiu cerca de 40 mil vistos para trabalhadores chineses, de acordo com dados oficiais.

Na China, José Eduardo dos Santos foi recebido ao mais alto nível, pelo presidente Hu Jintao, pelo primeiro-ministro Wen Jiabao e pelo presidente do Comité Permanente da Assembleia Popular Nacional da China, Wu Bangguo.

Wen Jiabao defendeu o incremento do comércio bilateral, e assegurou que a actual crise financeira não vai levar à redução do apoio a África e que conta com uma cooperação estreita com os países africanos na reforma do sistema financeiro internacional.

Na visita de três dias à China, o presidente angolano fez-se acompanhar pelos ministros das Relações Exteriores, Assunção dos Anjos, Finanças, Severino de Morais, Transportes, Augusto Tomás, e também pelo do presidente da petrolífera Sonangol, Manuel Vicente.

Do presidente do Eximbank, Li Ruogu, vieram algumas das palavras que a delegação angolana mais ansiava por ouvir.

“Estamos a planear expandir a cooperação com o Ministério das Finanças angolano”, disse Ruogu citado pela Angop após um encontro com José Eduardo dos Santos.

Entre os altos executivos chineses que tiveram encontros com o presidente angolano destacam-se vice-presidente da Companhia de Indústrias do Norte da China (Norinco), Zhi Yulin, o presidente da Companhia de Estradas e Pontes da China (CRBC), Chan Yushang, e o presidente da Sinohydro, Fan Jixiang.

Esta empresa, que está a executar mais de 70 projectos em todo o país, pretende envolver-se na construção de centrais hidroeléctricas, permitindo a Angola passar a gerar a energia de que precisa para manter o seu ritmo de crescimento.

O presidente Hu Jintao, afirmou que vai orientar as empresas públicas chinesas para alargar a cooperação com Angola, referindo especificamente os domínios comercial e de telecomunicações.

Durante a visita foram assinados vários acordos de cooperação bilateral, nomeadamente um acordo-quadro de cooperação, outro para os transportes aéreos, um de cooperação económica e técnica e um último de cooperação cultural.

Foi ainda anunciado o envio técnicos agrários chineses para ajudar Angola a desenvolver a sua agricultura, e ainda o aumento das ligações aéreas entre os dois países, passando a Air China a operar sete voos semanais a partir de 2009.

Em Angola, a visita mereceu amplo destaque, e foi pretexto para diversas análises da cooperação bilateral, nomeadamente a do presidente da Câmara do Comércio e Indústria de Angola, António Santos, que destacou o papel de Macau enquanto plataforma de entendimento.

“De dois em dois anos, temos tido um fórum. Temos apreciado esta forma de trabalho, este desenvolvimento de cooperação empresarial entre os dois países, com a plataforma Macau a servir de trampolim para estas trocas comerciais”, afirmou ao Jornal de Angola António Santos. (macauhub)

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