Angola: Desvalorização do kwanza é descartada pelas autoridades, mas inevitável para analistas

2 March 2009

Luanda, Angola, 2 Mar – As autoridades angolanas têm vindo a rejeitar sistematicamente uma desvalorização do kwanza, mas alguns analistas consideram a medida inevitável, face à descida das reservas externas aplicadas no reforço da moeda nacional.

De acordo com dados divulgados na semana passada pelo Standard Bank, considerado o maior banco do continente, nos próximos seis meses a moeda angolana deverá recuar 11 por cento, com o dólar norte-americano a valer 85 kwanzas.

“Dada a queda do preço do petróleo para muito abaixo do nível necessário para Angola financiar o seu défice corrente, acreditamos que o risco de desvalorização aumenta para 50 por cento nos próximos meses”, afirma Michael Hugman, analista cambial para mercados emergentes do Standard Bank.

Para o mesmo analista, a “relutância” do Banco Central em aceitar a desvalorização prende-se com os possíveis efeitos negativos ao nível da inflação, que tem vindo a subir, situando-se actualmente acima de 13 por cento.

Após notícias em Luanda e na comunicação social do país sobre uma desvalorização, o governador Amadeu Maurício apressou-se no mês passado a rejeitar a ideia.

Admitiu, contudo, que devido à quebra das receitas petrolíferas as reservas angolanas diminuíram de cerca de 19 mil milhões de dólares (Dezembro de 2008) para 17 mil milhões de dólares.

Esta redução resulta essencialmente da diminuição da produção petrolífera angolana com origem nos cortes estipulados pela Organização de Países Produtores de Petróleo (OPEP), conjugada com a queda do preço do barril nos mercados internacionais.

Ainda assim, dados do Banco Nacional indicam que as reservas estão bem acima da dívida externa, que até Novembro passado estava avaliada em 13,6 mil milhões de dólares.

Fonte bancária angolana afirmava recentemente à agência de notícias portuguesa Lusa que o BNA tem recebido solicitações diárias de mais de 300 milhões de dólares, quando a procura normal da moeda norte-americana se situa entre 50 e 60 milhões.

Na sexta-feira passada, o dólar negociava a 75,3 kwanzas em Luanda, em nível próximo daquele em que começou 2008, um registo bem melhor do que o das moedas de outros países produtores petrolíferos como a Rússia, Nigéria ou Cazaquistão.

De acordo com o Standard Bank, as autoridades têm vindo a usar as reservas externas, acumuladas durante o “boom” petrolífero, para impedir a desvalorização.

Se os preços do petróleo nos mercados internacionais ficarem abaixo dos 40 dólares por barril, as reservas deverão cair mensalmente entre 850 milhões a 950 milhões de dólares, de acordo com as previsões do banco sul-africano.

A confirmar-se a desvalorização, adianta, esta deverá processar-se de maneira “ordeira”, devido aos “bem administrados controlos de capital existentes”.

As estimativas do Standard indicam que o preço do petróleo médio terá de rondar este ano os 46 dólares para que o défice corrente atinja o ponto de equilíbrio.

Caso fique pelos 35 dólares, Angola poderá registar um défice corrente de seis por cento do PIB este ano – o que compara com um excedente de 20 por cento no ano passado.

O Orçamento de Estado para 2009 tem como base um preço de 55 dólares por barril, pelo que o Ministério das Finanças já admitiu a necessidade de refazer as contas – previsivelmente em Maio – enquanto o primeiro-ministro tem vindo a sublinhar a necessidade de maior “contenção” e “selectividade” nos investimentos, em relação aos anos anteriores.

O petróleo representa actualmente perto de 80 por cento das receitas externas angolanas e sensivelmente a mesma percentagem da arrecadação do governo.

Enquanto em 2008 a produção petrolífera angolana rondou 1,83 milhões de barris diários, actualmente situa-se em 1,6 milhões, de acordo com os dados do Standard Bank.

A previsão de crescimento económico de Angola do Standard Bank situa-se entre 3 e cinco por cento do PIB, face a 20 por cento em 2007 e 18 por cento no ano passado. (macauhub)

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