China/Brasil: Complementaridade estende-se da economia à ambição de maior peso internacional

25 May 2009

Washington, Estados Unidos da América, 25 Mai – A China e o Brasil apresentam hoje economias “complementares”, cujas trocas decuplicaram em valor em apenas sete anos e cooperam crescentemente no reforço do seu peso internacional, afirma o especialista chinês Jiang Shixue.

A análise de Shixue, vice-presidente da Associação Chinesa para Estudos Latino-Americanos e professor da Academia Chinesa de Ciências Sociais, é feita num relatório publicado em Maio pela Fundação Jamestown, a propósito da segunda visita à China do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva.

“Num cenário de crise financeira global, a China e o Brasil perceberam que podem fortalecer a cooperação tanto na esfera económica como noutras áreas, de modo a colher benefícios mútuos e fortalecer ainda mais a cooperação `Sul-Sul´. Por isso, parece auspicioso o futuro das relações entre a maior nação em desenvolvimento do mundo e a maior nação em desenvolvimento do hemisfério ocidental”, afirma o especialista chinês no relatório “O Panda Abraça o Tucano: As Relações da China com o Brasil”.

Da sua visita à China, onde se avistou com os mais altos responsáveis do país, o Presidente brasileiro trouxe um empréstimo de 10 mil milhões de dólares para a petrolífera estatal Petrobras, outro de 800 milhões para o Banco Nacional de Desenvolvimento Social e Económico e outros 100 milhões para o banco Itaú, todos concedidos pelo Banco de Desenvolvimento da China, além de múltiplos acordos de cooperação.

Foi ainda reiterada a nível presidencial a posição conjunta dos dois países de que da actual crise deve resultar um maior peso das potências emergentes nas grandes instituições internacionais, cuja reforma está actualmente a ser pensada.

“A crise financeira em curso criou múltiplas frentes para o Brasil e a China cooperarem (…) coordenarem de forma mais sistemática as suas posições na questão de reforma do sistema financeiro internacional, para que os seus esforços conjuntos, juntamente com acções de outros países em desenvolvimento, possam resultar num maior peso dentro do Banco Mundial ou do Fundo Monetário Internacional”, afirma o especialista chinês.

O ministro brasileiro das Finanças, Guido Mantega, tem vindo a afirmar-se como um dos principais defensores da “nova arquitectura financeira internacional” baseada num papel mais importante dos países “BRIC” – Brasil, Rússia, Índia e China.

De acordo com estimativas actuais, em 2050 o peso das economias “BRIC” será superior ao do conjunto das ocidentais.

Para Shixue, a participação da China e do Brasil nas cimeiras G-8 “simboliza, em parte, a ascensão do mundo em desenvolvimento” e no actual cenário de depressão, que penaliza sobretudo as economias desenvolvidas, “o G-20 emergiu como o veículo político de facto liderando a recuperação económica global”.

“O realinhamento de poder no sistema internacional (…) salientou as relações da China com o mundo em desenvolvimento e, em particular, com o Brasil, considerada a mais importante na estratégia `Sul-Sul´da China”, afirma o professor chinês.

A segunda visita de Lula à China marcou o 35º aniversário do estabelecimento de relações diplomáticas entre os dois países, parceiros estratégicos desde 1993, quando o ex-presidente chinês Jiang Zemin foi ao Brasil.

Os dois países, diz Shixue, têm “economias complementares e a sua respectiva vantagem comparativa desempenha um papel decisivo no auxílio à expansão de quota de mercado, desenvolvimento das relações económicas e promoção do crescimento económico”.

Enquanto o Brasil é rico em matérias-primas como bauxite, ouro, ferro, fosfatos, platina, urânio ou petróleo, a economia chinesa consome recursos de forma intensiva e precisa de assegurar importações para manter o seu elevado ritmo de crescimento.

Mas, diz Shixue, no caminho do reforço das relações apresenta-se um “significativo obstáculo”: o crescimento das fricções a nível comercial, nomeadamente com a imposição de barreiras alfandegárias “anti-dumping” a produtos chineses no Brasil.

Por detrás destas medidas, afirma, pode estar o “sentimento de uma `ameaça da China´ que alguns brasileiros têm”, e que chegou a ser várias vezes verbalizado pela Federação de Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), a maior associação patronal do país.

Apesar destes obstáculos, dados do Ministério do Comércio chinês mostram que o comércio bilateral subiu de 3,7 mil milhões de dólares em 2001 para 42,5 mil milhões em 2008, largamente favoráveis ao Brasil.

Já em Março deste ano, a China suplantou os Estados Unidos, tornando-se no maior mercado de exportação para o Brasil. (macauhub)

MACAUHUB FRENCH