Renegociação de dívida pode permitir regresso de Moçambique ao mercado de capitais

21 October 2019

A aceitação da proposta de reestruturação da emissão de euro-obrigações da Empresa Moçambicana de Atum pelos detentores poderá fazer com que Moçambique volte a poder aceder ao mercado de capitais e que melhore o seu relacionamento com alguns dos seus principais credores, segundo a Economist Intelligence Unit (EIU).

A EIU afirma no seu mais recente relatório sobre o governo de Moçambique está a tentar reduzir a sua dependência dos investidores tradicionais Portugal e África do Sul, embora adiante que este último país mantém-se como um parceiro importante, entre eles havendo um importante conjunto de acordos bilaterais.

Além das relações com os antigos principais dadores continuarem congeladas, na sequência da divulgação de dívidas ocultas no valor de mais de um milhão de milhões de dólares, Moçambique continua no imediato isolado dos mercados de capitais, não sendo igualmente de prever que o apoio directo ao Orçamento de Estado regresse a médio prazo aos valores existentes até 2016.

Mas, com o aumento dos investimentos directamente relacionados com o início das operações de montagem das instalações necessárias para os projectos de extracção de gás natural na província de Cabo Delgado, no norte do país, é expectável que o investimento directo estrangeiro venha a aumentar e que surja em simultâneo um interesse comercial de grande dimensão, particularmente de países como a Rússia, China e os Estados Unidos.

Os analistas da EIU voltam a mencionar o facto de a estatal Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH) ter decidido adiar a ida aos mercados no sentido de angariar cerca de 2300 milhões para garantir a sua participação de 15% no projecto do bloco Área 1, anteriormente operado pelo grupo americano Anadarko Petroleum Corp e actualmente pelo grupo francês Total, que os comprou os activos africanos daquele grupo ao grupo Occidental Petroleum Corporation.

“A aceitação da proposta de reestruturação da emissão de euro-obrigações vai, provavelmente, permitir à ENH a obtenção de melhores condições”, pode ler-se no documento, que salienta o facto de o grupo ExxonMobil ter adiado a decisão final de investimento para o projecto do bloco Área 4, em parceria com os italianos da ENI, devido aos conflitos com muçulmanos radicais que se registam desde 2017 naquela província moçambicana, que faz fronteira com a Tanzânia.

O documento adianta que a construção das instalações de apoio aos projectos recorre fundamentalmente à importação de materiais, embora se deva vir a registar algum investimento no mercado doméstico, particularmente no fornecimento de serviços auxiliares, incluíndo financeiro, legal e de construção civil.

O início da produção de gás natural no campo Coral, que se prevê venha a ocorrer em 2023, vai fazer com que o Produto Interno Bruto de Moçambique cresça nesse ano a uma taxa de 8,1%, antes de aumentar para 9,9% no ano seguinte, o último em análise no presente relatório.

Até esse ano a economia de Moçambique terá tendência a crescer, depois de uma contracção de 0,2% em 2019, para valores estimados entre 4,8% em 2020 e 6,5% nos anos de 2021 e 2022.

A taxa de inflação, por seu turno, que este ano deverá rondar 3,5%, terá tendência a aumentar progressivamente ao longo do período 2020/2024, atingido nesse último ano uma taxa de 8,1%, devido à continuada depreciação da moeda moçambicana, o metical. (Macauhub)

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