Países africanos devem diversificar exportações para se adaptarem a mudanças na economia da China

29 March 2016

As mudanças em curso na economia da China podem ser uma oportunidade para países africanos que hoje exportam sobretudo matérias-primas e petróleo, para se adaptarem e diversificarem as exportações ou subir na cadeia de valor, de acordo com analistas.

A China, principal parceiro comercial africano, tem registado um abrandamento económico e as autoridades querem que o “motor” do crescimento nos próximos anos seja não o investimento mas o consumo interno, o que afectará a procura externa, e em particular na África Subsaariana, de acordo com uma análise do “Trade Law Centre for Southern Africa” sul-africano.

“À medida que a procura interna chinesa muda de bens de investimento para consumo doméstico e, implicitamente, para os serviços, os exportadores de alimentos e de serviços podem ganhar com a alteração”, refere a análise de Março do China Africa Trading Relationship.

Isto permite compensar o impacto da redução da procura por importações africanas e da quebra dos preços de matérias-primas, que deverá ter um impacto negativo nos preços globais deste tipo de bens, afectando os termos de troca.

“É, por isso, imperativo para os países africanos diversificar exportações ou subir na cadeia de valor”, refere o documento, citadp pela agência Macauhub.

Angola, que tem no petróleo a principal fonte das suas exportações e base da sua economia, está entre os países onde são mais visíveis os esforços para diversificar exportações, na sequência da quebra de receitas relacionada com a descida do preço do petróleo, desde meados de 2014.

O aumento das trocas chinesas com África – para 221,5 mil milhões de dólares em 2014, mais de 20 vezes o registado em 2001 – foi impulsionada “pela grande factura da importação de petróleo, sobretudo de Angola”, refere o Trade and Law Center.

Dados da UN Comtrade (“United Nations Commodity Trade Statistics Database”) relativos a 2014 colocam Angola como a segunda maior fonte de importações chinesas em África, com 27% do total, atrás da África do Sul (39%), e 5º maior destino de exportações, com 6%.

Após o último Fórum para a Cooperação China-África (Joanesburgo, 4-5 Dezembro de 2015), o economista Mark Bohlund defendeu, em artigo para a Bloomberg Intelligence, que o abrandamento na China será mais um “solavanco” para os países africanos.

A quebra dos preços do petróleo, defende, resulta mais do aumento da produção nos Estados Unidos do que de uma redução de importações da China – cuja economia continua a crescer, a partir de uma base mais elevada.

A redução dos níveis de investimento, adianta, reflecte sobretudo a desvalorização de alguns activos mineiros e “o investimento financiado por dívida é muito mais importante para África do que o IDE e deverá continuar a crescer à medida que a China expande a abrangência dos seus projectos de financiados no continente.”

“O investimento chinês em infra-estruturas na África a sul do Saara deverá com maior probabilidade aumentar do que descer”, tendo em conta as transferências do banco central da China para o Banco de Exportações e Importações (ExIm) da China (45 mil milhões de dólares) e do Banco de Desenvolvimento da China (48 mil milhões de dólares), em Julho de 2015, para financiar a estratégia da Nova Rota da Seda, aponta Bohlund.

As autoridades chinesas têm vindo a defender que, mesmo no actual contexto de abrandamento, o investimento em África vai continuar e até terá mais importância.

La Yifan, embaixador chinês na Etiópia afirmou à agência financeira Reuters a 15 de Março que os países africanos podem mesmo ser “o local ideal” para investimentos de empresas que “impulsionaram a expansão das infra-estruturas chinesas nos últimos 30 anos”, numa altura em que a sua economia doméstica abranda e olham mais para o estrangeiro.

“Apesar de todas as dúvidas, posso partilhar que na China os departamentos de governo relevantes, bancos de desenvolvimento, companhias de seguros estão a abordar os seus parceiros africanos para tornar este grande plano uma realidade”, afirmou La. (Macauhub/AO/CN)

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