Chang Hexi deixa Fórum de Macau após 8 anos de serviço

5 August 2016

O secretário-geral do Fórum Macau, Chang Hexi, que vai ser substituído no cargo que ocupou durante oito anos, responde a perguntas colocadas pela Macauhub e apresenta a sua visão do que será o futuro da instituição.

Esteve à frente do Fórum de Macau mais de oito anos. Qual a grande diferença entre o Fórum que vai deixar e o que recebeu em 2008?

O Secretariado Permanente do Fórum de Macau, com o apoio dos Governos dos Países Participantes, do Governo da RAEM e dos diversos parceiros locais, bem como o esforço conjunto dos todos os membros do Secretariado Permanente, tem vindo, ao longo dos anos, a promover empenhadamente o intercâmbio e a cooperação entre o Interior da China, Macau e os Países de Língua Portuguesa nas áreas da economia e do comércio, na exploração de recursos humanos, bem como na promoção da língua e cultura, entre outras áreas, obtendo consideráveis progressos e em conformidade com as metas delineadas no “Plano de Acção para a Cooperação Económica e Comercial” do Fórum de Macau e, procurando simultaneamente, tirar o maior partido da plataforma de Macau. Acredito que o papel de Macau como a plataforma de serviços para a cooperação comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa tem sido consolidado.

Nos últimos anos, o Secretariado Permanente do Fórum de Macau e parceiros envolvidos têm procurado encorajar a cooperação em diferentes áreas, efectivar e divulgar o “Fundo da Cooperação para o Desenvolvimento entre a China e os Países de Língua Portuguesa”, e ainda, apoiar a construção de “Uma Plataforma, Três Centros”. Através da realização de encontros empresariais, entre os quais, o “Fórum de Jovens Empresários” como forma de consolidar o intercâmbio e cooperação entre as empresas dos Países Participantes. Os esforços do Secretariado Permanente também incidiram sobre várias outras iniciativas como a realização de uma “Mesa-redonda de dirigentes de províncias e municípios” versada sobre a cooperação entre as províncias, municípios e distritos dos Países Participantes do Fórum de Macau; a realização da “Cimeira para o Desenvolvimento Comercial e Industrial da Província de Jiangsu, Macau e dos Países de Língua Portuguesa” e de acções dos respectivos Grupos de Trabalho na promoção da cooperação sectorial; a realização do Seminário sobre “Ensino e Formação de Bilingues entre a China e os Países de Língua Portuguesa” e do “Seminário de Alto Nível sobre Turismo, Convenções e Exposições entre a China e os Países de Língua Portuguesa” na promoção do intercâmbio no âmbito do ensino, cultivo de profissionais, turismo, convenções e exposições; a organização da “Semana Cultural da China e dos Países de Língua Portuguesa” no intercâmbio cultural e reforço do conhecimento mútuo e laços de amizade entre os povos. Por outro lado, nas sessões de apresentação e nos workshops temáticos sobre os Países de Língua Portuguesa, foram apresentados o ambiente de investimento e de negócios, bem como, as áreas prioritárias de desenvolvimento, fornecendo deste modo uma plataforma às empresas para promover cooperação nestes países. Através da organização de vários colóquios do Centro de Formação do Fórum de Macau, estreitaram-se as relações amistosas entre os recursos humanos de várias áreas, promovendo a cooperação entre os Países Participantes do Fórum de Macau.

Ao longo dos anos assistiu-se a um aumento das relações entre a China e os países de língua portuguesa (PLP) não só ao nível de apoios financeiros mas também ao nível do investimento. Em que sectores pensa que  esta relação irá aumentar. Agricultura e pescas? Infra-estruturas? Apoio Social? Formação? Energia?

Em conformidade com os conteúdos definidos nos Planos de Acção para a Cooperação Económica e Comercial, o Secretariado Permanente tem promovido, de forma diversificada, o intercâmbio multilateral e a cooperação nas mais variadas áreas, aproveitando a plataforma de Macau. Tomando por base os princípios de dinamismo e pragmatismo, o Secretariado Permanente tem procurado inovar nos seus modelos de cooperação, utilizando sempre a plataforma de Macau como ponte privilegiada de relações entre os Países Participantes e verificou-se progressos e resultados encorajadores. A título de exemplo, podemos ilustrar esse sucesso na área agrícola, com a realização da “1ª Reunião do Grupo de Trabalho para Promoção da Cooperação Agrícola da Cimeira para o Desenvolvimento Comercial e Industrial da Província de Jiangsu, Macau e dos Países de Língua Portuguesa”, na qual foi definido um programa de actividades anual e que resultou na assinatura de acordos de cooperação entre a Província de Jiangsu e os Países de Língua Portuguesa e, nomeadamente, com Angola e o Brasil; na área de pescas, deu-se apoio aos serviços e empresas das Províncias de Zhejiang e Jiangsu para efectuarem visitas de prospecção a Timor-Leste, Guiné-Bissau e Angola com vista a explorar potencialidades de cooperação; no domínio de infra-estruturas, à margem do Fórum Internacional sobre o Investimento e Construção de Infra-Estruturas, o Secretariado Permanente realizou o “Encontro Ministerial sobre Infra-estruturas entre a China e os Países de Língua Portuguesa” e o “Seminário de Alto Nível sobre Finanças e Cooperação Internacional da Capacidade Produtiva entre a China e os Países de Língua Portuguesa” com o objectivo de apresentar às empresas do Interior da China e de Macau os ambientes, políticas de investimento e negócios dos Países de Língua Portuguesa assim como potenciais projectos, alargando o conhecimento das referidas empresas sobre esses Países; na vertente de recursos humanos, aproveitou-se a plataforma do Centro de Formação do Fórum de Macau para realizar colóquios em Macau e ainda se iniciou cooperação com os respectivos serviços do Governo da RAEM na organização, em Macau, de estágios destinados aos Países de Língua Portuguesa, bem como, a realização do Seminário sobre Ensino e Formação de Bilingues entre a China e os Países de Língua Portuguesa, entre outras actividades. Em suma, o Secretariado Permanente tem promovido, de forma pragmática, a cooperação em todas as áreas entre a China e os Países de Língua Portuguesa conforme estipulado nos Planos de Acção.

Muito foi feito ao longo dos últimos anos na relação entre a China e os PLP. No entanto o desconhecimento das potencialidades de investimento e a criação de parcerias e negócios continua a ser enorme. Não pensa que há uma necessidade premente de dar a conhecer cada vez mais o que cada um dos países tem para dar e receber. Não crê que dentro do Fórum essa área de promoção deveria ser reforçada?

Nos últimos anos, o Secretariado Permanente tem promovido, em larga escala, o intercâmbio e a cooperação entre as empresas da China e dos Países de Língua Portuguesa, participando, activamente em exposições e reuniões realizadas em Macau e no Interior da China, instalando o “Pavilhão dos Países de Língua Portuguesa”, no intuito de promover o ambiente de investimento e oportunidades de negócios nos Países de Língua Portuguesa. O Secretariado Permanente realizou várias diligências procurando aprofundar o conhecimento e incentivar o intercâmbio com as empresas do Interior da China, apresentando as potencialidades nos Países de Língua Portuguesa às empresas da China, através da realização de bolsa de contactos, sessões de apresentação e palestras. Aquando das várias apresentações realizadas, verificou-se uma falta notória de conhecimento sobre os Países de Língua Portuguesa, pelo que, o Secretariado Permanente irá continuar a reforçar a divulgação para que as empresas chinesas possam ter um conhecimento adequado sobre os Países de Língua Portuguesa na perspectiva de se criar mais e melhores oportunidades de cooperação

O Fundo de Cooperação para o Desenvolvimento da China e dos Países de Língua Portuguesa criado em 2013 tem tido um aproveitamento insuficiente. O que falha? Falta de informação? Falta de propostas bem fundamentadas? Desconhecimento do próprio Fundo? Em África, Portugal, Ásia e Brasil o Fundo é conhecido? O que se deve fazer para que esse fundo de mil milhões de dólares tenha de facto o aproveitamento que a China deseja?

O Secretariado Permanente tem vindo a promover o “Fundo da Cooperação para o Desenvolvimento entre a China e os Países de Língua Portuguesa” para incentivar, através deste instrumento financeiro, a concretização de mais projectos. O Fundo é gerido pela Sociedade Gestora do Fundo de Cooperação para o Desenvolvimento entre a China e os Países de Língua Portuguesa, que adopta o modelo de operação comercial e tem uma certa exigência na documentação para a candidatura ao Fundo apresentada pelas empresas. O Secretariado Permanente procurou desenvolver esforços para a promoção do Fundo junto das empresas, prestando apoio ao Banco de Desenvolvimento da China na apresentação das condições de acesso e procedimentos de candidatura. Aproveitando as actividades realizadas pelo Secretariado Permanente no Interior da China e nos Países de Língua Portuguesa, o Secretariado convidou regularmente um representante do Fundo para uma apresentação e, nomeadamente, por ocasião do “Encontro de Empresários para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa” que se organiza anualmente num dos Países de Língua Portuguesa, no intuito de dar a conhecer ao público sobre a sua utilização. O Secretariado Permanente considera necessário reforçar a promoção do Fundo junto dos empresários do Interior da China, de Macau e dos Países de Língua Portuguesa, para que todos possam conhecer o ponto de situação do Fundo e as suas formalidades de apresentação, de modo a apresentarem projectos que reúnam os requisitos do Fundo, com vista a acelerar o respectivo procedimento.

A actividade do Fórum e do IPIM parece por vezes sobrepor-se apesar de ambas as instituições defenderem a plataforma de Macau nas relações entre a China e os PLP. Não lhe parece que deveria haver uma maior distinção do que cada um faz?

O Secretariado Permanente, o IPIM e os respectivos serviços públicos da RAEM têm assumido uma atitude entusiástica relativamente à construção da Plataforma de Serviços para a Cooperação Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa. O Secretariado Permanente e o IPIM prosseguem objectivos comuns relacionados com a promoção de cooperação entre a China, Macau e os Países de Língua Portuguesa com o aproveitamento da plataforma de Macau, razão pela qual as duas entidades têm-se apoiado mutuamente, coordenando estreitamente acções, mais especificamente, na área de promoção da cooperação e intercâmbio empresarial. Durante a promoção e desenvolvimento da cooperação entre as empresas da China, dos Países de Língua Portuguesa e de Macau, o IPIM desempenhou um papel preponderante em várias acções concertadas na base das suas próprias valências. No ano passado, o Secretariado Permanente e o IPIM realizaram vários Workshops dedicados aos Países de Língua Portuguesa, que obtiveram bons resultados, e onde os Delegados dos Países de Língua Portuguesa no Fórum Macau tiveram a oportunidade de apresentar os seus Países aos empresários da China e de Macau convidados. No processo da construção e consolidação de “Uma Plataforma, Três Centros”, o Secretariado Permanente trabalhou, em estreita sintonia, com o IPIM, no lançamento do “Portal para a Cooperação na Área Económica, Comercial e de Recursos Humanos entre a China e os Países de Língua Portuguesa” que entrou em funcionamento no dia 1 de Abril de 2015 e concretizou-se a abertura oficial do “Centro de Exposição dos Produtos Alimentares dos Países de Língua Portuguesa” em 31 de Março deste ano.

Quais as principais tarefas do Fórum para dar resposta ao Plano de Desenvolvimento de Macau e do sul da China?

Macau tem-se esforçado para construir a Plataforma de Serviços para a Cooperação Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa e evidencia relações estreitas de cooperação com várias províncias do Sul da China. Conforme as linhas mestres do Plano de Acção para a Cooperação Económica e Comercial, o Secretariado Permanente procura promover, de forma activa, a cooperação económica e comercial, bem como em todas as áreas de interesse de todas as partes entre a China, Macau e os Países de Língua Portuguesa, através das vantagens de Macau, respectivamente, a língua, a cultura e o ambiente de negócios.

O Pan-Pearl River Delta (9+2) não lhe parece ser a grande área geográfica da China ondas pequenas e médias empresas dos países de língua portuguesa deveriam concentrar os esforços? Isto porque os grandes investimentos e negócios passam por Pequim, não por Macau. Não lhe parece que esta deveria ser uma das áreas prioritárias para fazer com que os empresários da China e dos PLP se encontrem?

A principal missão do Secretariado Permanente concentra-se na promoção da cooperação empresarial entre empresas provenientes do Interior da China e dos Países de Língua Portuguesa através da plataforma de Macau. A Região desempenha um papel de grande relevo no intercâmbio económico e comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, sabendo tirar o melhor proveito das suas vantagens, designadamente, linguística e cultural, assim como a intermediação de empresas locais que conhecem os mercados do Interior da China e dos Países de Língua Portuguesa. As regiões do Pan-Delta do Rio das Pérolas e de Macau têm um estreito relacionamento, perspectivando-se uma cooperação promissora com os Países de Língua Portuguesa. No que ao Secretariado Permanente diz respeito, serão realizados todos os esforços no sentido de incentivar a cooperação com a Região do Pan-Delta do Rio das Pérolas, ou outras províncias da China, interessadas na exploração dos mercados dos Países de Língua Portuguesa. Em rigor, o Secretariado Permanente já estabeleceu contactos com as províncias da Região do Pan-Delta do Rio das Pérolas e empresas de várias províncias. Em resultado e, após a realização de várias apresentações sobre ambientes de negócios e investimento dos Países de Língua Portuguesa, algumas empresas conseguiram concretizar visitas de prospecção aos Países de Língua Portuguesa e entrar em diálogo com parceiros sobre possíveis vias de colaboração. Esperamos que mais empresas possam entrar nos mercados dos Países de Língua Portuguesa, aproveitando a plataforma de Macau.

O Fórum de Macau tem organizado programas de formação para os PLP. Que balanço faz desses programas e que pensa deve ainda ser feito nesse domínio?

Nos termos dos Planos de Acção e na sequência da criação do Centro de Formação do Fórum de Macau, realizam-se anualmente 5 a 6 colóquios temáticos versados sobre várias áreas de mútuo interesse, como por exemplo: Infra-estruturas, Protecção Ambiental, Direito Comercial, Gestão da Administração Pública, entre outras. Contabilizam-se 31 colóquios finalizados com a participação de 791 formandos. Estas acções de formação realizam-se com o objectivo de reforçar o nível de cooperação e as trocas de experiências entre o Interior da China, Macau e os Países de Língua Portuguesa, sendo objectos de uma pronunciada apreciação por parte dos Países de Língua Portuguesa. O Secretariado Permanente continuará, neste domínio, a consolidar e melhorar as formações.

A sua relação com Macau, Portugal e os países de língua portuguesa tem sido o foco da sua carreira nos últimos 30 anos. Como vê o futuro papel de Macau no sul da China e na cada vez maior ligação com a província de Guangdong?

Macau encontra-se na fase de construção de “Um Centro e Uma Plataforma”. Através das suas próprias vantagens, designadamente, o factor da língua, a cultura e as estreitas relações existentes com os Países de Língua Portuguesa, e mediante o empenho na promoção do intercâmbio económico e comercial entre a China, Macau e os Países de Língua Portuguesa, o seu papel enquanto plataforma será cada vez mais consolidado e enriquecido. O Fórum de Macau é um mecanismo multilateral de cooperação entre a China e os Países de Língua Portuguesa, e ainda, a complementaridade no quadro da cooperação bilateral. Estou convicto de que este mecanismo possa contribuir significativamente para elevar o papel de plataforma de Macau, melhorar o conhecimento dos Países de Língua Portuguesa por parte do tecido empresarial, assim como explorar mais oportunidades de cooperação, através do intercâmbio multilateral realizado via Fórum de Macau.

É difícil prever o futuro mas como pensa vai ser a evolução do Fórum de Macau como plataforma nas relações entre a China e os países de língua portuguesa?

O Fórum de Macau completou 13 anos de existência. Com o apoio dos Governos dos Países Participantes e da RAEM, dos diversos sectores envolvidos e com o esforço conjunto de todas as pessoas do Secretariado Permanente, os Países Participantes do Fórum têm vindo a realizar, através da Plataforma de Macau, intercâmbios multilaterais, com conteúdos enriquecidos e variadas formas de cooperação, consolidando, ao longo dos anos, este papel que Macau desempenha. Com a realização da 5ª Conferência Ministerial, os objectivos do Fórum de Macau serão cada vez mais orientados para o pragmatismo e o seu desempenho e funções serão cada vez mais relevantes. (Macauhub

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