Relações económicas entre Portugal e Angola são “estrada de dois sentidos”

5 September 2011

isboa, Portugal, 5 Set – As relações económicas entre Portugal e Angola estão em alta e são crescentemente “uma estrada de dois sentidos”, com um maior peso das exportações e investimentos angolanos na antiga “metrópole”, afirmam os analistas portugueses Paulo Gorjão e Pedro Seabra.

Num artigo para a South African Foreign Policy and African Drivers Programme, intitulado “Caminhos Cruzados: Portugal e Angola Ascendente”, os dois analistas sublinham que nos anos recentes as duas economias “aproximaram-se consideravelmente, com vários investimentos mútuos, ajudando a estimular o desenvolvimento local”.

O comércio, em particular, demonstrou um “progresso impressionante”, com Angola a passar de nono maior mercado de exportação português, em 2002, para o quarto, em 2009, quando se tornou no maior mercado fora da União Europeia para Portugal.

O investimento atingiu 693 milhões de euros em 2009, quase doze vezes mais do que em 2002, apesar de ter recuado em 2010, tal como o comércio devido às dificuldades económicas em Portugal, afirmam Gorjão e Seabra.

O sector bancário tem sido alvo preferencial destes investimentos, tendo operações em Angola todos os cinco maiores bancos portugueses (Caixa Geral de Depósitos, SantanderTotta, Banco BPI, Banco Espírito Santo e Millennium bcp), tal como as maiores construtoras (Mota-Engil, Teixeira Duarte, Soares da Costa, Somague e Edifer) e até empresas de telecomunicações.

No petróleo, a Galp Energia mantém relações próximas com a Sonangol, sua accionista, baseadas na exploração de blocos na costa angolana e na parceria em Cabo Verde, Enacol, reflectindo uma “crescente convergência de interesses”, apontam.

“Também tem havido um empurrão oficial para direccionar estes investimentos para outras províncias além de Luanda. Angola pretende sustentar a diversificação da sua economia e combater a desertificação do interior do país. Também pretende tirar partido de oportunidades de negócio negligenciadas por outros actores internacionais”, afirmam.

É o caso das províncias da Huíla e Benguela, que têm grandes necessidades de infra-estruturas.

Mas, adiantam Gorjão e Seabra citando um diplomata, a relação entre ambos os países é hoje “uma estrada de dois sentidos”, com as importações de produtos angolanos em Portugal a passarem de 70 milhões de euros em 2002 para 560 milhões de euros em 2010, quase totalmente graças ao petróleo.

Os investimentos angolanos passaram de 1,6 milhões de euros em 2002 para 116 milhões em 2009, reflectindo “o interesse súbito de empresas angolanas em oportunidades de negócio em Portugal”, tendência iniciada em 2007.

Embora haja diversos privados angolanos por detrás destes investimentos, o principal investidor é a Sociedade Nacional de Petróleos de Angola (Sonangol), que foi acumulando uma participação no maior banco privado português, Millennium bcp, que ascende hoje a 12,44% e também na Galp Energia, com a empresária angolana Isabel dos Santos.

Esta empresária tem sido a investidora mais activa, participando na fundação do Banco Internacional de Crédito em 2008, comprando 9,8% do Banco BPI e 10% da empresa de telecomunicações ZON.

Ambos estes actores têm estado na liderança do “surto de capital angolano” em Portugal, que tem sido “na maior parte bem-vindo pelas empresas portuguesas, que procuram diversificar a sua estrutura accionista enquanto se abrem a oportunidades de negócio em Angola”.

No final de 2010, o investimento angolano representava 3,8% do mercado accionista português, um total de 2,18 mil milhões de euros.

“O crescimento no comércio bilateral oficialmente encorajado e promovido abriu o caminho para uma maior troca de fluxos de capital mistos entre Angola e Portugal, o que favoreceu o desenvolvimento de vastas empresas transnacionais”, referem os dois analistas.

Para os autores, os desenvolvimentos nas relações políticas e económicas demonstram que Portugal continua a figurar numa posição cimeira nas prioridades externas de Angola.

“Portanto, é provável que estes laços sejam ainda mais aprofundados enquanto a trajectória de Angola continua em ascensão dentro do continente africano”, escrevem. (macauhub)

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