Recursos humanos em foco no próximo ciclo de cooperação económica China/África

15 August 2016

O ciclo de expansão das matérias-primas, que sustentou o crescimento das relações económicas entre a China e países africanos como Angola, está a esgotar-se e a próxima oportunidade está nos recursos humanos, de acordo com o investigador David Dollar.

No estudo “O Envolvimento da China com África: Dos Recursos Naturais aos Recursos Humanos”, da Brookings Institution, o investigador norte-americano defende que “as fundações da relação económica África/China estão-se a mover”, depois de um período inicial em que era “lógica” a importação de matérias-primas africanas pela economia em maior crescimento no mundo, a par da exportação de produtos industriais.

“Estes padrões de comércio e investimento irão provavelmente mudar de forma gradual, em resposta às alterações demográficas. A população em idade activa na China atingiu o pico e vai reduzir-se nas próximas décadas”, o que já se repercute em aumentos salariais e do consumo interno, componente mais dinâmica da economia, adianta.

Também o modelo baseado em investimento e exportações está a “perder vapor” e há capacidade de produção excedentária no imobiliário, indústria e infra-estruturas, pelo que a procura de matérias-primas deverá manter-se branda.

Dollar afirma que a demografia africana está a seguir a direcção oposta, apresentando mesmo semelhanças com a da China antes das reformas económicas de há 35 anos – metade da população tem menos de 20 anos, pelo que a população activa irá aumentar nos próximos 20 anos, obrigando o continente a criar 20 milhões de empregos por ano.

“A demografia africana representa ao mesmo tempo uma oportunidade e um desafio. É irrealista esperar que a relação económica China/África mude da noite para o dia. E também não seria razoável esperar que grande parte da capacidade industrial chinesa se instalasse no continente no curto prazo (…) mas mesmo que uma pequena parte seja transferida pode fazer uma diferença significativa nas economias africanas”, afirma.

As primeiras conclusões do estudo do China Africa Research Initiative, da universidade norte-americana Johns Hopkins, recentemente apresentadas pelos investigadores Jyhjong Hwang, Deborah Brautigam e Janet Eom, indicam que dos 86,9 mil milhões de dólares de crédito chinês a África entre 2000 e 2014 – pelo governo, bancos e empresas chinesas – Angola recebeu 21,2 mil milhões de dólares, 23% do total.

O Banco de Desenvolvimento da China foi a instituição que mais crédito concedeu a Angola (11,3 mil milhões de dólares), seguido do Banco de Exportações e Importações da China (7,36 mil milhões de dólares) e outros (2,5 mil milhões de dólares).

Para o investigador, a China deve trabalhar com os governos africanos no sentido de “encorajar as empresas chinesas a contratar e formar trabalhadores, bem como limitar o fluxo de trabalhadores” para estes países, até porque o incentivo para as empresas contratarem localmente é maior devido ao encarecimento do custo de expatriar trabalhadores.

Depois de ter analisado a base de dados do Ministério do Comércio Externo da China de empresas com investimentos em África, Dollar conclui que, enquanto as maiores empresas estão focadas na extracção de recursos naturais, as pequenas e médias dedicam-se sobretudo aos serviços e indústria, algo que interessa particularmente a muitas economias africanas.

No final de Julho, à margem da Reunião de Avaliação da 2.ª Cimeira do Fórum China/África (FOCAC), foram assinados em Pequim 39 acordos entre empresas chinesas e africanas, avaliados em 17 mil milhões de dólares, de acordo com a Xinhua.

O seminário empresarial à margem da reunião contou com mais de 400 participantes de agências governamentais, instituições financeiras, associações empresariais e empresas.

Na reunião estiveram a vice-ministra dos Negócios Estrangeiros e Cooperação moçambicana, Nyeleti Mondlane, e ministro das Obras Públicas, Construções e Urbanismo da Guiné-Bissau, Malam Banjai, entre outros representantes de países de língua portuguesa.

Do FOCAC, em Dezembro de 2015 em Joanesburgo, saíram 10 planos de cooperação entre a China e África para os próximos 3 anos, avaliados em 60 mil milhões de dólares. (Macauhub/AO/CN/GW/MZ)

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