Macau pode aprofundar o seu papel de plataforma financeira

7 October 2016

Macau pode desenvolver ainda mais o seu sector financeiro através do fornecimento de novos serviços e do apoio a empresas da China e dos países de língua portuguesa. Os bancos emissores do território, o Banco da China e o Banco Nacional Ultramarino, são as instituições financeiras privilegiadas para apoiarem o papel de Macau enquanto plataforma para a promoção das relações entre a China e os países de língua portuguesa.

A revista Macao falou com Pedro Cardoso, presidente da Comissão Executiva do Banco Nacional Ultramarino.

1- O governo de Macau tem defendido que Macau pode ser uma plataforma financeira para os países de língua portuguesa e um centro de negócios em CNY. Na sua opinião que tipo de plataforma seria essa?

É reconhecida a importância estratégica de Macau enquanto plataforma de promoção de negócios entre a China e os Países de Língua Portuguesa (PLP). Esta missão está alavancada, não apenas por razões de amizade histórica com os PLP, mas também pelo facto da língua portuguesa ser uma das línguas oficiais do Território. Ainda nesta área, as empresas oriundas dos PLP podem tirar vantagens do posicionamento estratégico de Macau na foz do rio das Pérolas e da sua proximidade com Guangdong, uma das províncias com maior contribuição para o PIB Chinês. A recente constituição de zonas francas em Nansha e Hengqin pode originar ainda maiores oportunidades nesta área.

A longínqua amizade e confiança entre os povos Chinês e Português, faz de Macau um excelente melting pot que fomenta uma relação mais estreita entre ambos.

A confiança mútua tem sido alicerçada através de séculos de relação, o que faz da plataforma de Macau um local único no que à compreensão das diferenças culturais entre estes países diz respeito proporcionando, desta forma, uma mais–valia nos negócios, investimentos e outras áreas de colaboração.

Macau adopta um regime fiscal reduzido e simplificado, tornando-se um local onde eventos de cariz multinacional são realizados anualmente, contando com a presença de representantes de empresas oriundas dos PLP. Estes eventos são organizados com o objectivo de promover negócios e alianças com empresas Chinesas e assim retirar vantagens de oportunidades de investimento na China. Um exemplo claro do referido, é a MIF – Feira Internacional de Macau, que normalmente conta com um pavilhão exclusivamente dedicado aos PLP.

O papel de Macau enquanto plataforma de serviços, é também reforçado pela sua participação no Fundo de Desenvolvimento e Cooperação entre a China e os PLP, assim como no lançamento da iniciativa dos três centros estratégicos: um centro de negócios para as PMEs dos PLP, um centro de distribuição de produtos alimentares dos PLP e um centro de feiras e convenções para a cooperação económica e comercial entre a China, Macau e os PLP.

Macau é considerado por muitas empresas a operar nos PLP, como uma plataforma de entrada no mercado Chinês. Complementarmente, esta abordagem é muitas vezes realizada através de parcerias, alianças estratégicas e contactos privilegiados com empresas locais. Várias instituições financeiras e empresas de Macau estabeleceram redes nos PLP. Empresas dos PLP criaram sucursais ou pontos de contacto no Território com o objectivo comercializar os seus produtos na China Continental, usufruindo de condições especiais ao abrigo do acordo de parceria económica entre Macau e a China (CEPA).

O acordo CEPA, que sofreu alterações e melhorias em Junho de 2015, diminui o limite de empresas de Macau que possam aceder a determinados sectores de mercado na China, beneficiando das mesmas condições que beneficia uma empresa local naquele País. Assim, Macau encontra-se em excelente posição para atrair empresas dos PLP que pretendam entrar no mercado Chinês. Exemplificando, um Banco de Macau, como o BNU, poderá iniciar a sua actividade operacional em Renminbi, assim que a sua agência seja autorizada a estabelecer-se na China, o que difere bastante da regulamentação adoptada no passado.

2-Como um dos bancos emissores de Macau e com relações privilegiadas com os PLP como vê a possibilidade de usufruir dessa plataforma de negócios?

O BNU está presente em Macau há mais de 114 anos e trata-se de um dos dois Bancos emissores da Pataca e agente do Tesouro para o Governo da Região Administrativa Especial de Macau. É ainda um dos principais Bancos comerciais de Macau, com mais de 220 Mil Clientes, cerca de um terço da população de Macau.

Ao longo da sua história, o BNU tem contribuído para o desenvolvimento económico e social do Território, quer enquanto Banco emissor de moeda, quer no financiamento aos projectos das suas principais infra-estruturas.

O BNU continua cada vez mais empenhado neste papel, com equipas especializadas no apoio ao Comércio Internacional, às Grandes Empresas, às Pequenas e Médias Empresas locais e aos Clientes de Retalho.

Por outro lado, o BNU desempenha um papel crucial no apoio a empresas dos PLP que pretendam operar no Território e na China, quer assumindo-se enquanto facilitador de contactos, quer fornecendo serviços financeiros especializados, nomeadamente na área de comércio internacional. Contamos igualmente com a vasta presença internacional do Grupo CGD, em 23 países, incluindo em sete Países de Língua Portuguesa. Com a nossa já longa história, conhecimento e experiência nesta Região, o BNU encontra-se extremamente bem posicionado para fazer a ponte, estando assim naturalmente activo no apoio ao comércio e investimento às empresas na China, Macau e PLP.

3- Podemos considerar que o BNU é um parceiro ideal para concretizar o projecto do governo de fazer de Macau uma plataforma de negócios entre a China e os PLP.O que tem o BNU que outros não têem?

Conforme referi anteriormente, o BNU é parte do Grupo CGD, com uma extensa rede global, presente em 23 países, espalhado pela Europa, Ásia, África, América e Países de Língua Portuguesa. O Grupo CGD tem estado bastante activo no apoio ao comércio entre a China e os PLP.

O Grupo CGD encontra-se presente em sete PLP, com posição de líder de mercado em cinco destes países. Na China, estamos presentes em Macau, Zhuhai, Xangai e brevemente ainda este ano, contamos abrir uma nova Agência em Hengqin, estabelecendo desta forma uma plataforma ainda mais forte na ligação dos Países Lusófonos à China.

Uma Instituição como a CGD, com uma vasta presença em mercados tão dispersos e com diferentes níveis de estágio de desenvolvimento é uma fonte de conhecimento e experiência que se pode partilhar com os nossos Clientes.

O BNU tem promovido diversas iniciativas procurando enfatizar as excelentes condições de negócio que Macau aporta às empresas que estejam a operar nestes mercados, através do intercâmbio entre os diversos actores do sector económico e comercial.

4- A próxima agência do BNU em Hengqin e uma cada vez maior componente na ligação de empresários portugueses a Macau e vice-versa podem concorrer para um melhor desempenho do banco. De que modo?

Já foi autorizada a abertura de uma Agência em Hengqin, pelo BNU. A principal estratégia comercial desta Agência será acompanhar os nossos Clientes a providenciar apoio aos Clientes do Grupo CGD que gostariam, ou já estejam a investir e a fazer negócio na China. Um número significativo de Clientes do BNU dispõe de investimentos na China Continental, particularmente na Província de Guangdong. Acreditamos que o desenvolvimento económico estimado para Hengqin, nos irá proporcionar mais oportunidades.

Por outro lado, uma parte significativa das relações comerciais e de investimento com os PLP, é feita através da China Continental. Desta forma, com a abertura da nossa Agência em Hengqin, o BNU irá certamente desempenhar um papel mais activo na promoção de negócios entre a China, Macau e os PLP.

5- O BNU assinou com o Banco da China um acordo de cooperação para actuar nos PLP. Como funciona e que benefícios trás para o banco?

Em Junho de 2015, o BNU e o Banco da China de Macau, assinaram um protocolo com o objectivo de promover os negócios entre a China e os PLP. A assinatura deste protocolo, que contou com a presença dos membros da Administração da CGD, representou o início de uma relação mais profunda e global, entre as duas instituições. Através das redes globais da CGD e do BOC, uma plataforma de comunicação e canais de informação é, assim, criada para partilhar conhecimento do Mercado na China e nos PLP, na promoção de referências cruzadas de Clientes de áreas geográficas distintas, bem como no reforço da cooperação entre vários sectores.

Ambas as instituições concordaram que esta relação de proximidade poderá trazer maiores benefícios para Macau, reforçando desta forma o seu papel enquanto plataforma de negócios entre os PLP e a China beneficiando igualmente os seus Clientes.

É assim já possível, hoje em dia, a uma empresa que esteja a operar em qualquer país do espaço de língua Portuguesa chegar a contacto directo com um potencial fornecedor que esteja a operar na China Continental recorrendo a esta plataforma de conhecimento que o Grupo CGD e o Banco da China possuem.

Outra área em que nos encontramos a colaborar estreitamente com o BOC é na promoção da utilização do Renminbi (CNY) como moeda de liquidação, uma vez que o BOC Macau foi autorizado pelo People’s Bank of China (PBOC) como Banco de liquidação de CNY para os PLP.

Com a inclusão do Renminbi no cesto de direitos especiais de saque do Fundo Monetário Internacional e sendo uma das moedas com maior crescimento nas transacções nas relações comerciais mundiais, é expectável que esta moeda seja uma das principais a ser utilizada nas trocas comerciais entre estes países e a China. Mas o que irá dar vida a esta plataforma são seguramente as relações entre as empresas e os particulares a operar nestes mercados.

6- O BNU criou uma área de negócios para as relações específicas com os PLP. Foi uma medida acertada? Há resultados concretos?

Macau trata-se de uma importante plataforma entre os PLP e a China. BNU detém uma vantagem única nesta área e nós desempenhamos um papel muito activo e comprometido com esta missão.

Criámos uma área de International Desk (iDesk) há alguns anos, com o objectivo de desenvolver as relações com os nossos parceiros nesse países. Informação é a chave para o sucesso e esta equipa especializada tem como tarefa a obtenção de informações e a criação de oportunidades de negócio entre os PLP e a China, e vice-versa. Temos vindo a reportar oportunidades de negócio aos nossos parceiros nesses países e na China. Além disso sabemos tirar proveito do nosso conhecimento do mercado local na identificação de parceiros, fornecedores e/ ou potenciais Clientes para essas empresas.

Através da CGD em Portugal, logo que tomamos conhecimento da intenção de uma empresa em criar uma subsidiária em Macau, de imediato encetamos contactos, naturalmente providenciando informações acerca da documentação necessária para abertura de Conta no BNU, mas também destacando as condições favoráveis ao investimento em Macau. O BNU trabalha também, em estreita colaboração com as Unidades Externas do Grupo CGD, no sentido de apoiar os investidores chineses assim como as companhias que pretendam investir ou operar no mercado Chinês.

O iDesk trabalha igualmente com as áreas comerciais e as restantes Unidades do Grupo, no sentido de desenvolver novos produtos que possam ir de encontro às necessidades dos nossos Clientes.

7- Dispõe o BNU de uma carteira de clientes tanto na China como nos PLP que lhe permita servir de ligação para a constituição de parcerias para actuar em ambas as zonas de influência?

Sim. O BNU está presente em Macau há mais de 114 anos e somos parte integrante do Grupo CGD. O nosso Grupo detém uma forte presença nos PLP e alicerçados numa forte parceria com as Instituições Financeiras desses países, o BNU encontra-se sempre disponível para apoiar os Clientes indicados por essas Instituições no sentido de prestar todo o apoio nos seus investimentos na China, incluindo em Macau.

Com a nossa presença em Xangai desde 2006 e a abertura prevista de uma Agência em Hengqin, o BNU verá reforçada a sua posição e certamente irá adoptar um papel ainda mais activo na promoção de negócios entre a China e os PLP,  providenciando um leque de serviços bancários a empresas oriundas dos PLP, que pretendam investir na China.

Por outro lado, uma série de empresas da China e de Macau, estão a desenvolver negócio com empresas dos PLP, bem como a investir naqueles países. O BNU detém uma parte significativa dos clientes envolvidos no comércio e investimentos com os PLP.

8- Como vê no futuro o desenvolvimento dessa plataforma no quadro do relacionamento entre a China e os PLP tendo Macau como charneira?

Macau pode ser utilizado pelas empresas como uma plataforma de preparação e adaptação de produtos e serviços e formas de negociação ao enorme mercado chinês, através de parcerias, alianças estratégicas e contactos privilegiados com as empresas estabelecidas no Delta do Rio das Pérolas.

O BNU tem um papel crucial no apoio à implementação de empresas dos Países de Expressão Portuguesa no território, quer facilitando os contactos, quer prestando serviços financeiros, nomeadamente na área do trade finance. Em nossa opinião, o maior desafio que os agentes económicos podem enfrentar são as diferenças culturais e linguísticas entre os mercados chinês e lusófono. De salientar o facto de o GCGD e o BNU estarem particularmente bem posicionados, pelo conhecimento que tem de ambos, para fazer a ponte e assumir um papel de facilitador desses contactos.

Portugal por sua vez, no seu relacionamento económico com a República Popular da China, ao nível do investimento por PIB, foi um dos principais mercados europeus em que a República Popular da China investiu nos últimos anos. Este facto por si só demonstra a excelente confiança que a China deposita em Portugal e no seu potencial de desenvolvimento. Gostaríamos de ver mais produtos portugueses no mercado chinês, e Macau pode desempenhar um papel importante no estabelecimento de relações comerciais com empresas da China aproveitando não só as afinidades culturais, mas também as excelentes condições fiscais que o território oferece.

O plano quinquenal de Macau, que foi amplamente consultado e que será publicado em Setembro, irá muito provavelmente identificar Macau como um centro mundial de Turismo e Lazer, suportado pela inovação e novas tecnologias, com diversos sectores de investimento no sentido da diversificação da economia em sectores do turismo de qualidade e distintos do jogo. Por último, mas igualmente importante, com a iniciativa política da China “One Belt One Road”, temos assistido a uma cooperação cada vez mais acentuada entre a China e os PLP, não apenas em Portugal, mas também nos países Africanos, por exemplo. Assim, temos um sentimento positivo relativamente ao potencial de desenvolvimento de negócio nesta área.

9- O BNU está instalado no sul da China, região que actualmente representa um quinto da economia do país, um terço da sua população e um terço do PIB. Não lhe parece que deveria ser uma área prioritária para a actuação dos homens de negócios e empresas dos PLP?

Absolutamente de acordo. A China, tal como a esmagadora maioria dos países Asiáticos, encontra-se num plano de desenvolvimento, com recursos humanos motivados e cada vez mais qualificados. Consequentemente, o seu potencial de crescimento económico é enorme, constituindo assim uma realidade distinta da Europeia. A China é um mercado gigantesco e o seu nível de desenvolvimento e crescimento económico é incomparavelmente superior ao potencial crescimento na Europa. Referimo-nos a realidades em termos taxas de crescimento do PIB sensivelmente três a quatro vezes superiores à média Europeia.

Além disso, Macau aporta excelentes condições de negócio para as empresas que operam nestes mercados, através dos intercâmbios entre os sectores económico e comercial. Macau foi classificada pela Organização Mundial do Comércio como uma das economias mais abertas ao mundo em termos comerciais e de investimento.

Macau desfruta de um acordo de parceria económica (CEPA) com a China Continental – em grande medida idêntico ao que Hong Kong mantém com a China – e pode ainda reforçar a sua integração económica com a China. Macau mantém a vantagem de ser porto franco e território aduaneiro separado, uma carga fiscal baixa, fluxo de capital sem restrições assim como não tem qualquer controlo cambial.

O sul da China, mais especificamente a região do Delta do Rio das Pérolas, representa um quinto da área do território Chinês e um terço da população daquele país e inclui nove províncias/ regiões e duas regiões administrativas especiais., Macau e Hong Kong. Com o apoio do acordo de cooperação do Delta do Rio das Pérolas (PPRD) e do CEPA, Macau tem sabido na última década utilizar as vantagens do seu regime fiscal simples e reduzido e a sua já longa relação com os PLP, para atrair empresas destes países para investirem na China, bem como no apoio a empresas Chinesas a investirem nos PLP. Através do acordo PPRD, utilizando Macau enquanto plataforma, as empresas destas regiões (9+2) podem associar-se a empresas dos PLP através da organização de palestras, exposições, fóruns empresariais e visitas. Esta ligação é fundamental no sentido de fortalecer a relação económica e comercial, assim como aprimorar e promover as vantagens multilaterais que levam a um desenvolvimento comum entre as empresas da China e dos PLP.

Macau mantém relações comerciais com mais de 100 países é filiado com mais de 50 organizações internacionais, mantendo relações particularmente estreitas com os PLP. As actividades comerciais encontram-se em conformidade com as práticas internacionais, proporcionando assim um ambiente ideal para os investidores que escolhem Macau para desenvolver os seus negócios.

Em resumo, e de acordo com o atrás referido, certamente que Macau e a região do sul da China devem ser encaradas como zonas prioritárias nos projectos de internacionalização das empresas oriundas dos PLP. (Macao Magazine)

MACAUHUB FRENCH