África de língua portuguesa aguarda chegada de grandes investimentos industriais chineses

O apoio da China à industrialização de Angola e Moçambique tem sido definido como objectivo a nível governamental, esperando-se agora grandes investimentos na capacidade produtiva local, ainda mais necessários em momento de dificuldades económicas.

No Fórum para a Cooperação China-África (FOCAC) realizado em Dezembro de 2015 em Joanesburgo foi assumido o objectivo de deslocação de indústrias chinesas para África, assunto novamente discutido durante a recente visita do presidente moçambicano, Filipe Nyusi, a Pequim, tal como antes na capital chinesa pelo seu homólogo angolano.

O tema da deslocação é central à recente compilação de estudos “China-África: Uma Relação em Amadurecimento? Crescimento, Mudança e Resistência”, pelo Instituto Sul-Africano de Assuntos Internacionais (SAIIA), num dos quais os investigadores Carlos Oya e Terry McKinley, da “SOAS, University of London”, identificam um conjunto de oportunidades na conjuntura actual, nomeadamente em Angola.

Os investigadores escrevem que a conjuntura económica adversa em economias como a angolana pode, por um lado, afectar investimentos públicos e privados actualmente planeados, mas, por outro lado, “o excesso de capacidade de produção em países como a China no fabrico de produtos de baixa tecnologia e materiais de construção pode conduzir a um processo de deslocação para locais de produção de baixo custo”, em particular em África.

A quebra dos preços das matérias-primas, como o petróleo, pode mesmo “ajudar a acelerar o investimento em mais indústria e serviços, aliviando a pressão do mercado de matérias-primas”, o que “está a começar a acontecer em Angola, um grande exportador de petróleo”, defendem.

“Em Angola, o governo – que está actualmente imerso numa crise orçamental – começou a articular mais abertamente a necessidade de diversificação e desenvolvimento da indústria, com uma ênfase crescente na promoção do fabrico de materiais de construção, processamento e produção agrícola. A escassez de divisas está também gradualmente a levar as empresas a procurar fornecedores de produtos locais, especialmente nos materiais de construção”, adiantam.

Na mesma compilação da SAIIA, a investigadora norte-americana Deborah Brautigam (“Johns Hopkins China Africa Research Initiative”) refere que as candidaturas de investimento aprovadas pelo Ministério do Comércio Externo chinês até o final de 2014, incluíam 128 projectos industriais na Nigéria, 80 na Etiópia, 77 na África do Sul, 48 na Tanzânia e 44 no Gana.

Ainda nesse ano, de acordo com os mesmos dados, a China investiu 123 mil milhões de dólares em todo o mundo, dos quais apenas 3,2 mil milhões em África, um fluxo que se tem mantido relativamente estável.

“Os países africanos com mais investimento chinês aprovado estão classificados em primeiro, segundo, quarto, quinto e sétimo em termos do tamanho da sua população em comparação com outras nações africanas. Isto sugere que o tamanho do mercado local pode ser o factor mais importante para um grande número de potenciais fabricantes chineses”, refere Brautigam.

Giles Mohan, da Open University, sublinha que a China tem investido muito em infra-estruturas no continente, havendo em Angola uma tendência de criação de empresas por cidadãos chineses que chegam ao país para trabalhar em projectos de grandes empresas públicas.

As multinacionais chinesas têm demonstrado menor predisposição para subcontratar serviços “e assim potencialmente desenvolver ligações” e partilhar conhecimento, mas “isto parece estar a mudar” com a recente queda nos preços das matérias-primas e necessários cortes da custos, nomeadamente através da deslocação, afirma Mohan.

Numa intervenção reproduzida na compilação da SAIIA, o investigador Justin Yifu Lin, da Universidade de Pequim, defende que “a diversificação industrial contínua e a modernização são o caminho para gerar empregos e alcançar a prosperidade” e “o crescimento dinâmico e crescente dos salários na China será uma oportunidade para África.”

“Os países africanos, se conseguirem capturar essas oportunidades, podem crescer tão dinamicamente como os países da Ásia Oriental porque, fundamentalmente, todos os países bem sucedidos começaram a transformação da sua situação estrutural através da indústria ligeira”, adianta. (Macauhub/AO/CN/MZ)

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