Presença de empresas de Portugal em África atraiu empresas da China a privatizações

A presença em África foi um dos principais factores que atraíram investidores chineses às privatizações de empresas portuguesas dos últimos anos, devendo o investimento continuar, de acordo com as jornalistas Anabela Campos e Isabel Vicente.

O retrato das privatizações, sobretudo durante o período de resgate a que Portugal esteve sujeito entre 2011 e 2014 e que incluíram algumas das maiores empresas do país, como a Energias de Portugal (EDP), é feito no livro “Negócios da China”, lançado recentemente pelas duas jornalistas em Lisboa.

Em declarações à Macauhub, Anabela Campos, jornalista do semanário Expresso, afirma que sobretudo Angola e Moçambique, mercados interessantes para os investidores chineses, estão entre as “razões porque que se interessaram por Portugal.”

“A relevância de aprofundar a sua presença em África, com empresas que conhecem bem o mercado, teve um enorme poder de atracção para os investidores chineses. O facto de haver boas empresas à venda, a preços de saldo em alguns casos, e de a China estar a internacionalizar a sua economia fez o resto”, adiantou.

Um estudo de 2015 da consultora Rhodium, elaborado para a sociedade de advogados Baker & McKenzie, que analisou o total de transacções entre 2004 e 2014, coloca Portugal como o quarto país da Europa que mais investimento chinês recebeu na última década, à frente de economias de muito maior dimensão como as de Espanha ou mesmo de Itália, por exemplo.

Em 2014, indica, o investimento total da China na Europa ascendeu a 18 mil milhões de dólares, o dobro do registado no ano anterior, com os países preferidos dos investidores chineses a serem o Reino Unido (5,1 mil milhões de dólares), Itália (3,5 mil milhões de dólares) e Países Baixos (2,3 mil milhões de dólares) e Portugal (2 mil milhões de dólares), seguido da Alemanha (1,6 mil milhões de dólares).

O montante poderia ter superado mesmo o do país que mais investimento recebeu, caso a oferta da Anbang pelo Novo Banco (4,2 mil milhões de euros) tivesse sido aprovada pelo Banco de Portugal.

Estes dados são anteriores a investimentos realizados posteriormente, caso do sector da saúde, da HNA na transportadora aérea TAP e o da Fosun, concluído nas últimas semanas, no Banco Comercial Português (BCP), o maior banco privado português, que fez do grupo chinês o maior accionista, ultrapassando a Sociedade Nacional de Combustíveis de Angola (Sonangol).

As jornalistas observam um padrão entre o investimento chinês e angolano em Portugal, estando presentes praticamente nos mesmos sectores e em alguns casos nas mesmas empresas – caso do BCP, mas também da Global Media.

“É cedo para dizer que se há uma certa coordenação entre ambos, nomeadamente no BCP, onde está a Sonangol, dona de empresas subsidiárias envolvidas em negócios com os chineses”, cauciona Anabela Campos.

A jornalista disse ainda que os investidores chineses “estão em Portugal como não estão em nenhum país do Ocidente, não só pela diversidade de sectores em que entraram, mas também pelo facto de duas empresas estatais chinesas terem passado a deter o controlo do sector eléctrico português, a EDP e Redes Energéticas Nacionais (REN),”

Dados recolhidos pelas jornalistas durante a investigação para o livro indicam que a estatal China Petroleum & Chemical Corporation (Sinopec) poderá vir a tornar-se accionista da Galp Energia, de quem é parceira em negócios no Brasil.

Resultado de investigação e entrevista a alguns dos principais políticos e gestores do país, o livro das jornalistas do Expresso aborda também o investimento de outras origens, caso do angolano e do francês, uma vaga que consideram “uma revolução económica” em Portugal. (macauhub)

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