Financiamento chinês a Angola é um exemplo de “transparência”, afirma investigadora dos EUA

3 June 2019

O financiamento concedido pela China aos países africanos tem proporcionado vantagens recíprocas, sendo Angola um exemplo de “transparência” dessa concessão de capitais, afirmou a investigadora americana Deborah Bräutigam.

A investigadora disse em entrevista recente à Brookings Institution que, para países como Angola, Sudão ou Gana, que têm recebido crédito chinês garantido pelo fornecimento de recursos naturais, estas garantias permitem taxas de juro mais baixas, sendo por isso um modelo que “pode funcionar, como dizem os chineses, numa relação de ganho mútuo.”

Em Angola, que, segundo Bräutigam, já se financiou em mais de 30 mil milhões de dólares na China, com garantias petrolíferas, é possível “saber o que acontece aos empréstimos chineses, porque o Ministério das Finanças na realidade até é transparente”, publicando “listas de todos estes projectos na sua página electrónica.”

A investigadora, que se tem destacado na investigação sobre os créditos chineses em África, esta situação contrasta favoravelmente com a relação existente, por exemplo, com os Estados Unidos, que paga directamente o petróleo que compra a Angola, não sendo assim possível saber “o que acontece ao dinheiro.”

No caso da China, refere, “podemos ver que todos estes empréstimos garantidos por petróleo estão a ter retorno e estão a pagar infra-estruturas construídas em Angola”, o que “não é má ideia”, até por servir de restrição ao governo angolano, porque aplica uma parte das suas receitas petrolíferas em projectos de desenvolvimento.

Professora de Economia Política e directora da Iniciativa de Pesquisa China África na Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins, Bräutigam recusa a ideia de que o financiamento é aproveitado pelo governo chinês para ganhar influência política.

“Angola é o país que mais empréstimos da China recebeu (em África) e, mais uma vez, não vemos qualquer exemplo de influência estratégica, militar ou política particular que a China esteja a retirar desses empréstimos”, afirma a investigadora.

“Creio que o Banco de Exportações e Importações da China informou ter concedido até agora financiamento a 1800 projectos ‘Faixa e Rota’, pelo que tentar coordenar isto como uma espécie de conspiração para endividar esses países e depois usar esse endividamento para ganhar influência parece-me um pouco rebuscado”, adiantou.

No decurso do 2.º Fórum para a Cooperação China-África, o número de países africanos a aderir à iniciativa “Faixa e Rota” aumentou para 37, com Bräutigam a afirmar que essa decisão deve-se ao facto de ser do interesse dos países africanos manter e aprofundar a sua ligação à China. (Macauhub)

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