Zona de Comércio Livre Africana reforça atractividade do continente para investimentos industriais chineses

A implementação da Zona de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA), que conta com a adesão dos países de língua portuguesa, reforça a atractividade do continente para investimentos industriais chineses, segundo Jeremy Stevens, economista-chefe do sul-africano Standard Bank com o pelouro da China.

“À medida que as economias da África se tornam mais integradas, enormes oportunidades surgirão para empresas de sectores voltados para o consumidor – como retalho, telecomunicações e banca – e para indústrias de infra-estruturas, sectores relacionados com recursos e em toda a cadeia de valor agrícola”, afirma Stevens em artigo recentemente publicado.

Como resultado, adianta, “começarão a surgir centros industriais africanos que servem mercados locais e regionais”, uma “proposta convincente para empresários e investidores e que as empresas chinesas de âmbito global acharão difícil de ignorar.”

Assinado em 2018, o AfCFTA estabelece um mercado continental único que permitirá a livre circulação de empresários e investimentos, abrangendo todos os 54 estados-membros da União Africana – um mercado de 1,2 mil milhões de pessoas com um produto interno bruto (PIB) combinado de 2,5 biliões de dólares.

O acordo exige que os Estados membros removam inicialmente tarifas de 90% sobre os bens, o que deverá aumentar significativamente o comércio intra-africano, que representa apenas cerca de 13,5% do comércio total do continente.

À cabeça dos signatários está Angola, que esteve representada na cimeira de 2017 pelo seu presidente, João Lourenço, e também Moçambique, também representado pelo chefe de Estado, Filipe Nyusi.

Entre os signatários do acordo estão também a Guiné Equatorial, através do seu primeiro-ministro, Francisco Obama Asue, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde, representados ao nível de ministros, sendo a Guiné-Bissau o único país africano de língua portuguesa a não ter subscrito o acordo de Kigali.

Jeremy Stevens, que tem base em Pequim, disse também que, além da dimensão do mercado africano, as empresas chinesas têm como incentivo para a deslocalização de capacidade industrial o facto de os custos de mão-de-obra na China estarem a aumentar.

Para os países africanos, afirma o economista do Standard Bank, África oferece custos de mão-de-obra relativamente baixos, abundância de recursos naturais e mercados e populações domésticos em rápido crescimento.

Para realmente competir pelos investimentos industriais chineses, também virados para a Ásia, os países africanos deverão fazer acompanhar o desmantelamento de barreiras tarifárias de intervenções na melhoria da eficiência das alfândegas, combater atrasos burocráticos e a corrupção, para além de fazer “grandes investimentos em infra-estrutura física e redes de logística” e fazer melhorias incrementais na gestão económica e na facilidade de fazer negócios.

“Embora o relacionamento comercial da África com a China se tenha fortalecido nos últimos anos – uma tendência que deve continuar – a próxima grande oportunidade gira em torno da industrialização, criação de empregos e transferências de tecnologia através de investimentos do sector privado na indústria africana”, defende Stevens.

“A China já é o maior parceiro comercial da África e permanecerá profundamente envolvida na trajectória económica do continente. De facto, tornou-se praticamente impossível imaginar qualquer parceiro, excepto a China, como o parceiro comercial mais importante da África nas próximas décadas”, adianta. (Macauhub)

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